Joelmir Beting
A economia depende dos economistas tanto quanto o clima depende dos meteorologistas.
Kenichi Ohmae, consultor japonês.
Real perdeu só 13%
Com queda acumulada de 1,05% nos primeiros sete meses do ano, o dólar comercial (abaixo de R$ 1,80) indica que a desvalorização real da moeda brasileira, deflacionada pelo IPA/IGP, mal passa hoje de 13% desde o desmanche da banda cambial em janeiro de 1999.
Nada de traumático nesse ajuste técnico de mercado. A sinistrose cambial do ano passado bem que poderia ser enterrada em esquife de segunda classe. De preferência, na mesma cova rasa em que já deveria estar repousando o catastrofismo que martiriza medidas econômicas desagradáveis, porém necessárias. Tomou-se como tragédia o que não passava de uma solução.
Desvalorização real de apenas 13% em quase 18 meses? Não é por acaso que a economia brasileira deglutiu o ajuste cambial sem maiores abalos físicos em que pese a tragicomédia das projeções apocalípticas trombeteadas por 9 em cada 10 analistas no primeiro trimestre de 1999. O que só fez por retardar a retomada do crescimento econômico em pelo menos um ano.
Desvalorização real de apenas 13% também explica a sólida reestabilização dos preços de mercado, neutralizando a pesada reindexação dos preços de governo. E justifica, igualmente, a tímida resposta das exportações ao sinal verde do câmbio em liberdade. Sim, porque o IPA/FGV reflete a variação dos custos industriais e agrícolas e funciona como referência adequada para a avaliação da competitividade cambial do comércio exterior nas duas mãos.
Assinado: Global Invest, em estudo de Fernando Ferreira, citado por Sonia Racy, no Estado de domingo, 30. O estudo pega o fio da meada em 1º de julho de 1994, paridade 1 x 1, puxando-o até 30 de junho de 2000. A evolução da taxa real de câmbio, sempre deflacionada pelo IPA, leva em conta não apenas o dólar, mas toda uma cesta ponderada das 45 principais moedas da economia mundial. Cesta que cobre, hoje, 88% do comércio exterior do País.
Para ficar no ajuste pós-banda, tivemos até 30 de junho uma variação nominal de 49% no câmbio (dólar comercial) para um IPA de 31%, no mesmo período. A coisa desgarrou-se ainda mais na revalorização do real em julho: queda de 1,33% no dólar versus alta de 1,70% no IPA (estimativa).
Nos cálculos de Fernando Ferreira, a desvalorização real da moeda brasileira, em seis anos de atribulada carreira, ocorreu dentro da própria banda cambial, desfazendo-se gradativamente da forte sobrevalorização inicial. O problema é que a competitividade residual pós-banda não pode cantar de galo na zona européia do euro (depreciação de 11%). Menos ainda na Ásia (de 20% a 27%).





