Joelmir Beting
A nova tecnologia é a arte circense de inventar necessidades desnecessárias que se tornam absolutamente imprescindíveis.
Juliano Bastide, sociólogo.
Seleção darwiniana
Nos anos 20, havia uma centena de montadoras independentes nos Estados Unidos. Cercadas, todas elas, por eufóricos investidores de risco. Havia mais capitais que projetos no mercado de quatro rodas. Com o crash de 1929, gerando uma depressão sustentada de cinco anos, só varrida pelos primeiros ventos quentes da Grande Guerra, deu-se a seleção natural do mercado e a concentração patrimonial do negócio.
Daquela exuberante safra high tech, já então amasiada com a indústria do petróleo (tal como se dá hoje na comunhão da telecom com a datacom), sobraram apenas três montadoras nesta virada do século do automóvel: General Motors, Ford e Chrysler. Esta última, já literalmente absorvida pela Daimler germânica.
Será que algo parecido não estaria incrustado no DNA das empresas de Internet? Haveria, em mais uma década, se tanto, nada além de uma dezena de megaportais nos Estados Unidos. Ou meia dúzia aqui no Brasil.
E os gigantes da telemática dos hards e dos softs estariam casados em alianças tecnológicas e mercadológicas cimentadas pela ditadura do padrão on-line.
Sim, nos negócios da rede o maior valor agregado para provedores e usuários está na compatibilidade tecnológica e não propriamente nos apelos do preço ou da qualidade. A tal de Lei Metcalfe demonstra isso, matematicamente: o valor da rede é proporcional ao quadrado do número de participantes dela.
E tome ondas encavaladas de fusões e de incorporações nos três grandes campos de convergência do ciberespaço: telecom, datacom e multimídia. Um processo seletivo e excludente por natureza e necessidade. Sob as barbas brancas das leis antitruste.
Quem estabelece esse comparativo entre a concentração das montadoras desde os anos 20 e a concentração das empresas de Internet nesta virada de 2000 é o professor Paul Samuelson, Prêmio Nobel de Economia (1970). Ele avisa que o processo de concentração vai, logo mais, pegar dois atalhos: 1) a mortalidade infantil da maioria das novas estrelas da Web; 2) a aquisição das sobreviventes nas pechinchas pós-bolha da Nasdaq/Nyse. Sim, P/Ls de até 300/1 cairão para 17/1, média histórica de Wall Street.
Até porque, lembra ele, haverá o revide em bolsa das matronas da economia off-line. Afinal, a nova economia não substitui nem suplanta a velha economia. A nova simplesmente moderniza a velha que passa a carregar a nova no colo.





