Joelmir Beting
Chovendo no molhado
O mercado global, o da bolsa digital, passa o fim de semana plugado menos na expectativa da reunião de cúpula do G-7+1, em Okinawa, e mais da avaliação do discurso de Alan Greenspan, ontem, no Congresso americano. Uma palavra do presidente do Fed, o senhor dos mercados, vale mais que mil discursos dos senhores do mundo. Ponto.com e estamos conversados.
Alan Greenspan voltou a chover no molhado: a economia americana vai tão bem que, suspira ele, se melhorar ainda mais, acabará estragando tudo. A percepção de um pouso suave na travessia de 2001 apresenta-se como uma solução e não um problema. A economia dos US$ 10 trilhões cresceu 3,5% no ano passado, ensaia 5% este ano e pode ficar abaixo de 3% no próximo.
A expansão da economia (sem excitação da carestia) já dura 118 meses corridos ciclo sem paralelo na história da opulência do Tio Sam. Para Greenspan, ganhos de produtividade do sistema, usinados por choques encavalados de competição e modernização, fazem o genoma do fenômeno. Faltou dizer: com pouca ou nenhuma contribuição da austeridade monetária do Fed.
Austeridade feita de juros mais altos na base para inglês rir. Nenhuma palavra do próprio Fed sobre a farra de crédito na sociedade hedonista do quem não deve, não tem. Com sobras para a irracional exuberância (casada com irracional insegurança) do mercado de ações e para um déficit comercial já da ordem de US$ 1 bilhão por dia! Um pulo até Okinawa, cumieira do G-7+1 (os sete mais ricos, agora dando carona à Rússia, o urso que virou bode). A agenda, para variar, é
de avestruz. São 25 pautas encrencadas, igualmente chovendo no molhado.
Entre outras, o curso erradio da globalização, a ausência de autoridade sobre os atrevimentos da Internet, a sucata nuclear da Grande Rússia, a eclosão comercial do planeta China, a convulsão migratória nos dois lados do Atlântico Norte, os novos arroubos da Opep, os programas de ajuda aos países submergentes, a declaração de guerra ao crime organizado...
Para o mercado global, o que interessa é a divulgação, domingo, dos relatórios do chamado Consenso de Fukuoka. Ou seja: as propostas da reunião preparatória dos ministros de Finanças do G-7, em 8 de julho, sobre uma nova disciplina para o sistema monetário internacional. Coube à Itália, desde Fukuoka, a tarefa de depositar em Okinawa um plano de combate pactuado à lavagem de dinheiro sem bandeira em paraísos fiscais, sem remorso e em paralelos cambiais sem vergonha.





