O bolso na telinha
Essa não estava no programa. Na televisão por assinatura, nos Estados Unidos, a audiência líder da CNN (noticiário geral em tempo integral) já foi ultrapassada, desde março, pela CNBC (noticiário financeiro full-time). A liderança da pioneira CNN só estará restabelecida, transitoriamente, por algum evento de grande impacto: uma nova guerra localizada, um desastre de grandes proporções ou um cataclismo natural com ou sem aviso prévio.
Aultrapassagem cometida pela CNBC tem como reator justamente a ‘‘irracional exuberância’’ (com direito a uma irracional insegurança) dos mercados financeiros plugados em Wall Street, no rodapé do megamercado de ações da Nyse e da Nasdaq. Nada menos de 82 milhões de americanos (um adulto em cada dois) têm seu pé-de-meia em carteira própria de ações ou em cotas de fundos mútuos, clubes de investimento e fundos de pensão.
Eis a questão: a oscilação diária dos mercados financeiros, cobertos pela CNBC (e não apenas por ela), diz respeito aos padrões de poupança, de renda, de consumo e de qualidade de vida de metade da população americana. Titular, em bolsa, de um patrimônio coletivo de US$ 7,3 trilhões. Maior que o estoque de ações em poder das empresas em geral (US$ 6,5 trilhões).
Ocaso CNBC é examinado por Robert Shiller, de Princeton, no atual best seller Irracional Exuberância (Makron Books). Ele analisa a explosão do jornalismo de negócios na multimídia americana dos últimos cinco anos. No segmento TV, Shiller destaca o novo hábito do americano, em casa, no trabalho ou no bar, de ficar ligado o dia todo em canais que rodam notícias 24 horas.
Hábito lançado pela própria CNN, fundada em 1980. A equipe de Ted Turner chegou a bater a TV aberta na Guerra do Golfo (1991) e no caso O. J. Simpson (1995). Nessa espumante esteira é que vieram os canais de negócios do próprio Turner (CNNfn) e da Bloomberg, com sobras para a Financial News Network, absorvida pela CNBC.
Robert Shiller comenta que o noticiário financeiro ininterrupto e em tempo real deslocou a quantidade e a qualidade da informação do corretor ou do consultor para o investidor que não raro sabe hoje mais das coisas que o operador do mercado na outra ponta da linha.
As observações de Shiller dão carona a uma pesquisa de Richard Parker, de Harvard, sobre a recente explosão do noticiário financeiro também na mídia impressa. Que hoje cativa o leitorado (também nos jornais brasileiros) com atraentes e palatáveis matérias de análise e de serviço sobre o bolso nosso de cada dia.

mockup