Joelmir Beting
Coice do quarto setor
Dizem os cínicos que a corrupção verde-amarela não piorou. O jornalismo investigativo é que melhorou. Claro, pisando no terreno minado do quarto setor da economia e da sociedade por onde transitam recursos públicos escassos para fins privados escusos.
Quarto setor? Bem, o Primeiro Setor é o governo honesto: recursos públicos para fins públicos. O Segundo Setor é o mercado pactuado: recursos privados para fins privados. O Terceiro Setor, que está na moda, é a solidariedade humana: recursos privados para fins públicos. E o quarto setor (com minúsculas) é a corrupção, irmã siamesa da violência.
Aelefantíase do quarto setor faz da população brasileira o recheio de um sanduíche assassino: o da bandidagem de baixo para cima casada com o da bandalheira de cima para baixo. A miséria econômica é o efeito e não a causa do fenômeno. A causa verdadeira, que não está em discussão, é a miséria moral. Esta, sim, faz o DNA da exclusão social (e biológica) de uma ninguenzada que se conta em dezenas de milhões de brasileiros economicamente esfolados e politicamente fraudados.
Amiséria moral não faz distinção de classe. Ela ataca todas as instituições: governo, parlamento, justiça, polícia, igreja, empresa, futebol, educação, imprensa, previdência, família...
Eis que explode na praça mais um petardo do escandalômetro planaltino. E lá se vai para o ralo do esgoto nacional a tão sonhada reversão das expectativas na área econômica. A retomada do crescimento sustentado, com estabilidade monetária e neutralidade fiscal, pisa feio na casca de banana de patifarias passadas (como se já não bastassem as novas patifarias de cada dia). Os posseiros do piorômetro nacional rebrotam na arena política, de olho rútilo nas urnas de 2002.
Não é a primeira vez, na atribulada carreira do Real, que o quarto setor puxa o tapete do Primeiro e desliga o motor do Segundo, sobrecarregando a demanda do Terceiro.
Negócios, contratos, projetos e empregos saem novamente para o acostamento.
Triste sina, a nossa. No passado, o quarto setor era chamado, apropriadamente, de mar de lama. Ou como disse, certa feita, o então presidente Getúlio Vargas (1883-1954), comentando denúncias veladas sobre superfaturamento de obras federais e encomendas estatais: Metade dos homens do meu governo não é capaz de nada. A outra metade é capaz de tudo.





