Joelmir Beting
Caixa-preta na bomba
Rodava eu, certo dia, pelas montanhas nevadas de Yellowstone, no Wyoming, quando deparei na última curva da estrada com um magnífico portal de madeira entalhada, transmitindo em alto relevo a seguinte mensagem de saudação aos forasteiros:
- Bem-vindos a Billings
- Fundação: 1877
- Altitude: 2.814
- População: 17.320
- TOTAL 22.011
Claro, desci do carro, saquei meia dúzia de fotos e só me dei conta da pegadinha quando verifiquei, no hotel, que o portal rendia milhares de cartões-postais por ano para um asilo da cidade. Deve estar ainda por aí, em algum portal virtual da Internet.
Essa história me vem à memória pela semelhança econométrica com nossa estimada conta-petróleo. A carpintaria contábil dessa invenção palaciana é digna da prepotência trapalhona da economia de comando no momento em que se faz passeata contra a economia de mercado.
Nem mesmo um rali mundial de auditorias chipadas conseguirá decodificar a caixa-preta das contas (e dos custos) da Petrobrás e das margens e das moedas envolvidas na operação cruzada dos dados da gigante estatal com os cofres do Tesouro Nacional. Muito menos dos arranjos e dos incestos fiscais amontoados e amoitados em todos os preços finais.
Esse estrepitoso desperdício de tempo, talento e trabalho só vem à tona quando do reajuste dos combustíveis ainda (re)indexados e administrados pela estatocracia planaltina. A mexida geral de quarta-feira extrapolou os limites da aritmética frívola, diria Mário Henrique Simonsen. Uma chacoalhada geral nos negócios e nos bolsos privados para tão-somente justificar um corretivo fiscal meramente residual: transformar, no ano, no ventre da tal de conta- petróleo, um déficit de R$ 560 milhões, até junho, em superávit de R$ 810 milhões, até dezembro.
O governo diz que aumentou os combustíveis para reduzir os subsídios. O mercado prefere entender que o governo reduziu os subsídios para aumentar ainda mais os combustíveis ganhando duplamente na base dos custos e na ponta dos preços. Sem que se consiga peneirar, contabilmente, o arrazoado de reajustes nos portões das refinarias da ordem de 15% para a gasolina e o diesel, de 18% para o gás de fogão e de 34,5% para o queronese de avião.
Única certeza: a nova alquimia petrolífera da União, dona do monopólio estatal, vai aumentar de um terço a inflação mensal de julho e agosto.





