Fábrica de anjos
Dizem que a estatística é a técnica de torturar os números até que eles confessem... Pois, em matéria de indicadores educacionais, a criançada brasileira vai bem, obrigado. Nestes últimos 10 anos de Estatuto da Criança (ECA), a garotada de 7 a 14 anos, matriculada em escolas públicas e privadas, subiu de 86% para 96% da faixa etária total. Na vida moderna, saber é poder.
Não menos supimpa: o índice de repetência, flagelo nacional, caiu de 34% para 23%. Antes, um bombado em cada três. Agora, menos mau, um bombado em cada quatro. A taxa de evasão escolar, drama maior, baixou piedosamente de 6% para 4%. E não é para menos: alastra-se na baixa renda a percepção coletiva de que a escolaridade de hoje tem tudo a ver com a empregabilidade de amanhã. Mudança cultural decisiva para manter a prole na escola.
Pelo lado da educação de base, o País já parou de piorar e até ensaia uma ‘‘virada coreana’’ nesta segunda década do Estatuto da Criança. O problema de fundo está, doravante, no cacho das mazelas da pobreza e da exclusão: falta de comida, falta de moradia, falta de afeto, falta de família, falta de segurança, falta de cidadania.
Se me fosse dado eleger uma prioridade primeira no rodapé do Estatuto da Criança, jogaria todas as fichas na cobertura terminal da rede nacional de água e de esgoto. No caso, esgoto também tratado e não apenas coletado. A urgência é a seguinte: 1) na cidade e no campo, mais de 10 milhões de famílias (um domicílio em cada quatro) ainda sem água encanada; 2) mais de 23 milhões (56% do total) sem coleta de esgoto. Fonte: IBGE/1998.
Torturando os números: são 88 milhões de patrícios (perto de 40 milhões de crianças e adolescentes) sem esgoto sanitário. Casando-se a falta de latrina com a falta de proteína, tem-se como efeito líquido toda uma nova geração danificada pela diarréia endêmica. É de arrepiar: duas em cada três (65%) das internações hospitalares de crianças de até 10 anos resultam de lacunas do saneamento básico (BNDES/1998). A diarréia infantil lidera o ranking da causa mortis no Brasil. Em que pese o sucesso das campanhas intermitentes de utilização do soro caseiro (Unicef/1997).
Diretor da ONG Água e Cidade, Wilson Passeto suspira fundo: ‘‘A falta de água e esgoto mata 21 crianças por dia (de 0 a 4 anos). Uma a cada 72 minutos. E pensar que para cada R$ 1,00 investido em saneamento básico, poupam-se R$ 4,00 em medicina curativa.’’ Ah! Se a descarga sanitária desfrutasse hoje do mesmo ibope do alimento transgênico...

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