Missão impossível
Os 134 países da Organização Mundial de Comércio (OMC) reabrem, nesta sexta-feira, em Genebra, a discussão dos cortes de subsídios à economia rural em todo o planeta. A matéria é mais abrasiva que a de qualquer simpósio internacional sobre crime organizado, mudanças nas regras do futebol ou internacionalização da Amazônia. E certamente uma discussão tão inócua quanto a da erradicação global da miséria, da violência e da corrupção.
Duas propostas formais, previamente sondadas, prometem uma primeira trombada logo nesta primeira curva de um ciclo de negociações que pode durar até novembro: a proposta dos Estados Unidos e a proposta do Grupo de Cairns. Esta última, integrada pelo Brasil. A União Européia e o Japão, campeões do protecionismo agrícola, preferem sentar na fila do gargarejo, com o bico no toco.
Grupo de Cairns? Poderia ser Grupo de Cuiabá ou Grupo de Quebec. São os 13 maiores países exportadores de produtos agropecuários, liderados por Canadá, Austrália, Brasil e Argentina. Exceção dos Estados Unidos e da União Européia, potências agrícolas com luz própria. O Grupo dos 13 surgiu de uma reunião na cidade australiana de Cairns.
Para esta nova rodada da OMC, o Grupo de Cairns martela o samba de uma nota só: nada de subsídios para exportações, nada de confiscos nas importações, nada de cotas ou tetos nas transações, nada de barreiras não-tarifárias, do tipo sanitárias, ambientais, sociais e até culturais... Claro, uma abertura total em suaves aproximações anuais, no curso pactuado dos próximos 10 ou 15 anos, de muita saliva diplomática e de barganha não tanto.
A proposta dos Estados Unidos é tópica: 1) redução orquestrada e progressiva dos subsídios agrícolas para uso interno e externo; 2) manutenção de restrições sobre uma pauta seletiva de importações. Cada país continuaria protegendo de um a três de seus ‘‘produtos sensíveis’’, flexibilizando cotas e tarifas de importação. Washington não pretende abrir mão da taxação defensiva das compras externas de fumo, açúcar e suco de laranja.
E mais: os americanos defendem a manutenção de subsídios para pesquisa, fomento e práticas que não promovam distorções de comércio dentro e fora do país. Com o detalhe: gradativamente, substituir créditos baratos para a formação de estoques sem mercado por incentivos para a redução do plantio em ciclos de excedentes expediente já utilizado esporadicamente. Sim, ganhar para não plantar. São os espirros da fartura.

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