Plano real, ano 7
O professor Mário Henrique Simonsen (1935-1997) disse-me na televisão, na noite de 30 de junho de 1994: ‘‘No fundo, é tudo muito simples. Logo mais, à meia-noite, 160 milhões de brasileiros dividirão todas as contas por 2.750 e eis entronizada a nova moeda nacional.’’ Fácil, não?
É bom lembrar que não foi o cruzeiro que deu à luz o real. O cruzeiro simplesmente morreu de infecção generalizada e acabou enterrado em esquife de quinta classe: ‘‘Aqui jaz a moeda que acumulou, de julho de 1965 a junho de 1994, uma inflação de 1,1 quatrilhão por cento.’’
Sim, inflação de 16 dígitos, em três décadas. Ou precisamente, um IGP-DI de 1.142.332.741.811.850%. Dá para decorar? Perdemos a noção disso porque realizamos quatro reformas monetárias no período e em cada uma delas deletamos três dígitos da moeda nacional. Um descarte de 12 dígitos no período. Caso único no mundo, desde a hiperinflação alemã dos anos 20.
Perdemos a referência desse vexame por uma segunda razão: com o uso e o abuso da correção monetária, em todos os preços e contratos da economia sem juízo, fizemos da inflação uma mera ficção contábil. Tínhamos no banco, no contrato ou no patrimônio o curso da moeda indexada, com proteção plena e reposição cheia. O que eu chamava de moeda veloz, corrigida ano a ano, mês a mês, dia a dia – para não dizer de meia em meia hora.
Cruzeiro ou cruzado, novo ou usado, essa moeda veloz salvou os pães da classe média, os ganhos das empresas, os lucros dos bancos, as contas dos governos e os votos dos governantes. Os orçamentos federais, estaduais e municipais eram corrigidos integralmente (e diariamente) pelo lado da receita. Mas não, propositadamente, pelo lado da despesa. Qualquer político rastaquera era magnífico gestor de finanças públicas.
O problema é que havia um ectoplasma do cruzeiro circulando pelos rodapés da economia e da sociedade: a moeda podre do cruzeiro na mão ou no bolso, fora do banco ou do contrato. Com correção zero, proteção zero, reposição zero. E quem era o panaca que tinha o dinheiro só na mão ou no bolso (perdendo até 3% ao dia nos últimos arranques do cruzeiro)? A ninguenzada dos 77 milhões de patrícios de baixa renda (Pnad 1993).
Pois é. Durante 30 anos, metade da população refestelou-se com a correção monetária. A outra metade estiolou-se com a corrosão inflacionária. E não menos doloroso: fenômeno ignorado, até hoje, por todos os estudiosos da desigualdade social no Brasil.

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