Joelmir Beting
Americanização, não
Mais de 6 mil jornalistas de meio mundo, à frente de mais de 15 mil ativistas de ONGs européias e americanas, estão dobrando, nesta sexta-feira, a população da cidade de Millau. Onde ela fica? No Aveyron, sul da França, região produtora de queijos fortes e de protestantes gauleses.
Por que tamanha cobertura jornalística na pequena Millau? Porque se instaura hoje, na comuna, o processo da McDonalds americana contra o camponês José Bové. E o que andou aprontando esse tal de José Bové, a ponto de atrair o focus da mídia mundial? Arquétipo da oligarquia rural mais empedrada da Europa, bigodudo como um boneco Asterix, José Bové simplesmente botou no chão, a marretadas, a fachada da única loja McDonalds de Millau.
Isso aconteceu em agosto do ano passado. Com a competente exposição de motivos: 1) o BigMac é o míssil mais refinado da globalização patológica e patogênica desta virada do milênio; 2) sobre ser o símbolo do poder unipolar da águia pós-Muro, a cadeia americana de fast-food é o supra-sumo da la malbouffe (má comida) na pátria da gastronomia mais requintada do Planeta.
José Bové, 36 anos, ganhou seus 15 minutos de fama e não mais se falou nisso. Eis que, em novembro, vestido a carater, Bové desembarcou em Seattle, EUA, e assumiu o comando da baderna das ONGs no rodapé da Rodada do Milênio da Organização Mundial do Comércio (OMC), fiadora institucional da globalização. Daí, sim, a fama do bucaneiro gaulês faiscou em todas as línguas, justificando a presença, hoje, dos 6 mil correspondentes de guerra em Millau.
Globalização? Os franceses preferem o rótulo de mundialização. O camponês José Bové vai direto ao ponto: o processo não é de globalização nem de mundialização; é de americanização. Discursando outro dia, em Londres, ele disse que a globalização nada mais é que a forma superior do imperialismo americano, fantasiada de neoliberalismo.
Isso vende livro e produz passeata.
Camponês? José Bové é um dos maiores produtores de queijo Roquefort, empresa fundada pelo bisavô no século passado. Esse tipo de queijo é feito com leite de ovelha, temperado com ervas e mofos e turbinado por 63% de subsídios fiscais e financeiros (na mira da OMC). Ah! A família Bové exporta (ou globaliza) mais de metade da produção, desde antes da globalização.
Exportou o próprio José Bové. Dom Quixote da americanização, ele fala inglês fluentemente, com sotaque de Boston e não de Londres. Simplesmente, porque americanizou toda a sua formação universitária na Harvard Business School.





