Guincho da retomada
Ainflação brasileira está outra vez perto de zero, acumulando variação de apenas 0,7% de janeiro a maio no varejo paulistano patrulhado pela Fipe-USP. E não menos relevante: preços estáveis sem pajelança, sem congelamento, sem intervenção, sem tabelamento. Ah! E sem recessão.
Bem ao contrário: os preços de mercado estão até mesmo em deflação. Os preços de governo, administrados pelo próprio, é que ainda estão brincando de ‘‘repasse de custos para preços’’ (sem preocupação com a redução dos custos). O setor privado não tem conseguido repassar custos para preços. O mercado da ponta não sanciona a carestia da base. Ano passado, os custos na produção subiram quase 30% e os preços no consumo ficaram abaixo de 10%.
Em resumo: não há fadiga do material no programa de estabilização inaugurado pelo Plano Real. Não houve ruptura da jaula do IGPM ou do IPCA nem mesmo no sumiço da âncora cambial há exatamente 17 meses. Nem no tarifaço trapalhão, com pinta de reindexação tarifária, um ano atrás. Tanto assim que haverá um repeteco de correção preguiçosa de preços ‘‘administrados’’ nesta virada do semestre. Começando pela caixa-preta dos combustíveis.
O que importa é que a estabilidade monetária está amadurecida nos usos e abusos do próprio mercado em liberdade. Autêntica mudança cultural na pátria da inflação dita inercial...
Assim sendo, por que não romper o estado de anorexia monetária da economia brasileira? Ela não pode continuar literalmente sabotada pelo crédito bancário mais curto e mais caro do mundo organizado. Um garrote financeiro que só faz por avantajar a competitividade das empresas estrangeiras aqui estabelecidas. Estas pagam o mesmo Custo Brasil nos salários, nos encargos, nos tributos e nos serviços. Mas não nos empréstimos.
Logo, a prioridade primeira da autoridade monetária deveria estar ostensivamente plantada na expansão do crédito bancário. Por uma simples e boa razão: se a estabilização dos preços é o fator condicionante, a retomada do crescimento, com crachá de fator condicionado, já pode ser acionada com relativa segurança.
Sem grilo. Choques encavalados de modernização e de concorrência, servidos por margens ainda folgadas da capacidade de produção, cuidarão de manter a ferros a temível inflação de demanda. Com o lembrete: a distensão monetária, ao contrário da reforma tributária, não depende da classe política reticente. Basta-lhe a caneta da equipe econômica.


Secos & Molhados

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