Trabalhar menos?
Vigília de 36 horas, em revezamento de 36 manifestantes, pela carga semanal de 36 horas. Foi a resposta de bate-pronto da CUT ao sinal verde emitido, desde Paris, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, favorável à redução da jornada de trabalho no Brasil. A vigília deu-se na escadaria da Fiesp, na Avenida Paulista.
O presidente, de novo em Brasília, esclarece: 1) a carga semanal de 35 horas, já praticada oficialmente na França, ainda não oferece resultados conclusivos; 2) nem tudo o que é bom para os franceses seria bom, necessariamente, para os brasileiros; 3) a redução da jornada não deve ser baixada por decreto, mas pactuada livremente pelas empresas e pelos sindicatos.
Quem pede essa decisão por decreto, com todo o aval do Congresso, é a Constituição de 1988 – carga semanal de 36 horas. Está em 44 horas. Na prática, trabalha-se 48 horas ou mais. Tanto quanto, hoje, nos Estados Unidos.
Nove em cada dez sindicalistas clamam pela redução da jornada (sem redução do salário). Além de ‘‘civilizar’’ a qualidade de vida dos trabalhadores, alegam eles, a jornada menor contribuiria para alargar a base do emprego formal, com sobras para o trabalho informal. Foi esse o ‘‘ponto-de-venda’’ da carga semanal de 35 horas, desde janeiro, na França.
Nove em cada dez empresários, escoltados por uma boa penca de consultores e economistas, sustentam que a carga semanal de 36 horas, por decreto, não passaria de um ‘‘tiro no p钒 do mercado de trabalho. Haveria um duplo efeito bumerangue: custo maior do trabalho com redução maior do emprego.
Osecretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Edward Amadeo, reputado pesquisador da Economia do Trabalho, diz que a ‘‘cultura da hora extra’’ encareceria ainda mais a folha de pagamento das empresas. A hora extra vale 50% mais. Elas cuidariam de automatizar ainda mais as linhas de produção e de mecanizar e informatizar ainda mais os mercados de serviços. O impacto sobre o emprego geral seria negativo e imediato.
Em abril, 64% ou dois terços dos comerciários de São Paulo trabalharam mais que as 44 horas semanais de lei. Na indústria paulista, com crescimento no ano de 6,6%, a hora extra envolveu 44% dos trabalhadores com carteira. Fonte: Dieese/Seade.


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