Joelmir Beting
Cadê a âncora?
Em cinco meses corridos, a inflação no efervescente varejo da capital paulista não chegou a 0,7%. No acumulado de cinco meses, é o menor índice do Plano Real. Ou a carestia mais molóide desde que a Fipe-USP iniciou a pesquisa dos preços em 1939. Que tal?
O problema é que nove em cada dez economistas não encontram explicação para o fenômeno. Inventores de âncoras, eles gastaram papel e saliva durante quase cinco anos para esclarecer a opinião pública de que, no front da guerra santa contra a inflação, o sucesso do Real não passava de mera ficção cambial.
Ou seja: no dia em que o Brasil soltar o câmbio na selva do mercado, desligando a âncora cambial da estabilização (dos preços), a inflação voltará a atacar a bolsa do povo enganado com apetite de orca ártica bicho que almoça tubarão e janta pneus de caminhão.
A âncora (?) cambial virou fumaça em janeiro do ano passado. Houve até um tarifaço trapalhão na travessia de 1999. E a inflação anual, nos terminais do consumo, permaneceu na bitola civilizada de um dígito. Sem âncora fiscal, ainda em gestação. E sem âncora monetária crédito curto e caro é veneno disfarçado de purgante.
Ah! Dizem agora que a inflação não escapa da jaula porque o cadeado da recessão e do desemprego é feito de aço-carbono. Primeiro: se recessão derrubasse inflação, Collor, o Demolidor, teria acabado com ela no triênio 1990/92. Segundo: se recessão acabasse com a carestia, a aquecida cesta básica do Dieese (com crescimento em vendas de 74% desde a estréia no Real) não estaria com inflação acumulada de apenas 27% em 65 meses.
AE mais: se recessão congelasse preços de produtos e serviços encalhados, como explicar a inflação quase zero dos paulistanos para uma economia que voltou a crescer, desde janeiro, 5,3% nos supermercados, 6,6% nas fábricas e 19% nos bens de consumo?
A verdadeira âncora do Real permanece ativa e não exibe sinais de fadiga do material. Bem ao contrário, ganha musculatura a cada novo lance da retomada geral dos negócios. Estou falando de um tripé já destacado meia centena de vezes nesta coluna e só nesta coluna: 1) desindexação (iniciada pela URV) voluntária e progressiva de preços e contratos; 2) choques de competição nos mercados; 3) choques de modernização nas empresas. O resto é simpósio mole para a boiada ruminar.
Secos & Molhados





