Água virou poeira
Do alto de um desperdício coletivo de até 40% da água coletada e distribuída, a Região Sudeste encara o desafio secular do Nordeste. O racionamento de água em pleno outono azul e seco como não se via há quase quatro décadas. Com sobras para um iminente racionamento de energia, oferta igualmente por um fio.
A falta de chuva antes da estiagem de inverno é assunto para São Pedro. Mas a perda de água encanada, pelo dobro do índice internacionalmente aceito, é assunto para governos, operadoras, empresas, famílias, indivíduos. E aí não tem mosquito: ou se adota um sólido esquema de poupança voluntária do precioso líquido ou se apela
para um tarifaço digno dos estados de ‘‘economia de guerra’’.
Se é verdade que o órgão mais sensível do bicho-homem é o bolso, o tarifaço parece ser a única solução para um Brasil que pensa ser dono do maior reservatório de água doce do planeta. E onde, numa cidade como São Paulo, que já se obriga a puxar água da Bacia do Piracicaba, a 120 quilômetros de distância da Praça da Sé, a maioria da população imagina que a água nasce na torneira. E dá-lhe a ‘‘varredura’’ de quintais e calçadas a bico de mangueira.
O desperdício nacional começa pela contaminação química e orgânica dos mananciais metropolitanos. Prossegue pelos furos das velhas redes de captação e distribuição. E culmina no esbanjamento anedótico em empresas, serviços e residências. Sem contar a perda comercial das ligações clandestinas (de água e de energia da água).
Culpa do grande São Pedro? Pelo sim, pelo não, a Sabesp acaba de inaugurar o racionamento na Grande São Paulo. O ronco intermitente das torneiras vai durar até 30 de novembro. Um corte calibrado para compensar um desperdício da ordem de 11 metros cúbicos por segundo na ponta do consumo. Gandaia agora dramatizada pela secura antecipada dos reservatórios da região.
Nas maiores áreas metropolitanas, os índices de desleixo estão em suave declínio desde 1995. Mas o Programa Nacional do Controle de Desperdício de Água, apoiado pela Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento, aponta níveis de perdas ainda inadmissíveis: 39% no Rio de Janeiro, 33% em Belo Horizonte, 29% em São Paulo.
Das 27 companhias estaduais, apenas 5 conseguiram baixar a taxa de desperdício para menos de 30%. Em 3 delas, as perdas ainda estão acima de 70% dignas de verbete no Guiness Book. Em 125 concessionárias municipais, esse ralo maior que a torneira vai igualmente de 30% a 70%.
No Rio, com perdas de 39%, o consumo clandestino entra na rubrica de ‘‘ativo social’’. Que tal?


Secos & Molhados

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