Reféns do passado
Caçapa cantada em abril de 1991: ao embarcar no regime cambial da paridade fixa, um peso por um dólar, a Argentina está comprando passagem só de ida, sem retorno, para a dolarização ostensiva e/ou camuflada. Ela não terá como se desvencilhar dessa armadilha monetária - se a conversibilidade paritária e compulsória durar mais de 12 meses. Completa hoje 109 meses.
Sem mistério: governos, bancos, empresas, famílias e indivíduos são devedores em dólares, segunda moeda corrente no país. Uma ruptura da paridade fixa produziria uma pequena minoria de ganhadores para uma grande maioria de perdedores. Haveria de bate- pronto um ‘‘overshooting’’ cambial de até 80% para uma correção técnica de no máximo 35%.
O lembrete é de Antenor Barros Leal, empresário brasileiro do setor de moagem de trigo: ‘‘O peso argentino é a única moeda do mundo, rigorosamente a única, que permanece congelada há nove anos corridos. Nesse período, marcado por uma volatilidade cambial estrepitosa, as moedas dos 50 países mais desenvolvidos registraram uma correção média de 30%. Menos o peso argentino.’’
O euro, moeda única européia, já acumula correção de 11% em apenas 17 meses de carreira. O real, que escapuliu da banda cambial que durou 42 meses, precisou de apenas 90 dias para ajustar uma correção técnica de 38% (pelo IGPM) – tida ainda hoje como taxa de equilíbrio do câmbio de mercado (R$ 1,80).
O pacotaço argentino desta semana objetiva matar três bezerros com uma só marretada: 1) dourar a pílula fiscal para a auditoria do FMI (que desembarcou ontem em Buenos Aires); 2) restabelecer a confiança de investidores sem bandeira na austeridade orçamentária do novo governo de Fernando de la Rúa; 3) prorrogar por tempo indeterminado a paridade cambial inventada em abril de 1991.
Este último tango em Buenos Aires, o do corte de gastos públicos, complementa o primeiro pacote de janeiro, o do aumento de impostos. A ordem é rebaixar o déficit fiscal deste ano para 1,6% do PIB, contra 2,5% no ano passado. Nada de dramático, tecnicamente. Mas tudo de traumático, politicamente.
A perspectiva de desacelerar a retomada do crescimento de 4% para 2% ao ano (ao cabo de 27 meses de recessão) só faz por aumentar a aflição dos aflitos. O desemprego já está acima de 14% na Argentina, contra menos de 8% aqui no Brasil.


Secos & Molhados

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