Joelmir Beting
Churrasco do mundo
A carne bovina do futuro, em todo o mundo, terá no Brasil o maior fornecedor, disparado. O boi de ração não aguentará, por mais tempo, a competição do boi de capim. Em mais 15 anos, se tanto, a ração protéica do gado em confinado terá de disputar mercado com o consumo humano, sem alternativa, das mesmas proteínas vegetais.
Tradução: a carne vermelha made in Brazil dará conta de mais de metade da demanda mundial. Até porque se trata de um criatório preponderantemente zebuíno, turbinado por uma seleção genética de sete décadas e returbinado por cruzas européias de alto bordo. Do que resulta um animal de ficção científica para a demanda dietética do século 21: carne magra de boi gordo. Sacada de criatórios a céu aberto, sob o guarda-chuva virtual da proteção fitossanitária.
Essa combinação já comprovada de elevados coeficientes de rusticidade com generosos índices de ganho de peso é que vai fazer do Brasil, ali na frente, o imbatível campeão mundial da proteína vermelha. Aqui nestes trópicos quentes e úmidos, a pecuária extensiva desfruta de terras a perder de vista e de capim o ano todo. De preferência, capim de manejo e rotação, consorciado com nobres variedades de gramíneas e leguminosas. Capim de Deus não basta.
A chave do negócio, todavia, está no controle sanitário do rebanho. Caso do sucesso agora recompensado da vacinação sistemática contra a febre aftosa entre outras zoonoses tropicais replicantes. Reunidos em Paris, na semana passada, delegados de 155 países da Organização Internacional de Epizootias (OIE) assinaram o certificado de área livre de aftosa para toda a região Centro- Oeste integrada por Paraná, São Paulo, oeste de Minas, Distrito Federal, Goiás e Mato Grosso.
SSó ficou de fora o Mato Grosso do Sul, ainda com infestações tópicas. Ao Sul, Santa Catarina e Rio Grande do Sul já desfilavam o diploma de erradicação da doença. A aftosa não alcança o homem, mas arrebenta a boca do animal e emagrece toda a boiada infectada. O mundo não aceita carne in natura de boi doente. Ela poderia contaminar a boiada americana ou européia (esta, já meio louca).
Com o novo certificado da OIE, o rebanho remapeado para sobras de exportação de carne e derivados sobe de 15 milhões para 75 milhões de cabeças. A boiada verde-amarela é estimada em 167 milhões de cabeças. Sim, temos exatamente um boi para cada brasileiro. Ué! Cadê o meu?
Secos & Molhados





