E o tranco na ponta?
Juros e barris em alta lá fora e dólar e grilo em alta aqui dentro determinam o congelamento da taxa básica do Banco Central, vulgo Selic, em 18,50% ao ano. Pelo ‘‘focus’’ e pelo ‘‘locus’’ da turbulência externa, agora com epicentro não na Ásia ou na Rússia, mas em Wall Street, não jogar a Selic para cima constitui um bom refresco.
O que importa é manter em passeata, em comício e em manifesto a repulsão terminal da sociedade a taxas de juros draculianas nos créditos bancários à produção e ao consumo. Não dá mais para empurrar com a barriga da tolerância coletiva um sistema financeiro que se tornou fim em si mesmo. Acabou a barriga verde-amarela, perfurada pela inadimplência de pessoas, famílias e empresas.
O crédito bancário mais curto e mais caro do mundo servido por uma baciada de explicações cambiais, monetárias e fiscais e por nenhuma justificativa econômica tornou-se socialmente perverso, sobre ser economicamente suicida. Gasta-se mais saliva e papel na discussão dos juros já amaciados na base interbancária do que no questionamento das taxas de usura na ponta do setor produtivo.
Dados do Banco Central revelam que o custo de captação de recursos pelos bancos, em abril, não passou de 18,1% ao ano. Pois, nos empréstimos às empresas, a taxa anual cravou 45,7%. Nos financiamentos às pessoas físicas, o tranco foi de 77,8%. No cheque especial e no cartão de crédito, 152,3%.
Dá para competir, produzir, consumir, progredir? Dá para relançar a economia, o emprego e o futuro? Dá para escapar das garras de credores capinanceiros num Brasil ainda desfalcado de sócios capitalistas? Dá para investir no negócio ou no trabalho quando espirros e suspiros on-line da opulência americana ‘‘recomendam a não-redução dos juros e a não-ampliação dos prazos’’?
Como diria Descartes, o que não falta é bom senso ao monetarismo criogênico e colonizado do Brasil. Tanto assim, que os bancos lavam as mãos enluvadas. E esfregam na cara dos mutuários esfolados a certidão de bom senso deles: quem segura os juros nos limites da usura de balcão é o arrocho monetário feito de recolhimentos compulsórios, de direcionamentos e contingenciamentos bancários e de encargos fiscais ostensivos e camuflados embutidos nas taxas de captação e de aplicação dos recursos.
Ah! Falta acrescentar a tirada maior do bom senso monetaróide: o prêmio de risco amoitado na taxa cobrada do mutuário honesto e pontual para cobrir (com sobras) as perdas com o mutuário inadimplente ou caloteiro. Prêmio de até 45% do ‘‘spread’’ bancário.


Secos & Molhados

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