Joelmir Beting
Mercado telúrico
De repente, o televisor vira computador, que vira telefone, que vira televisor. Telecomunicação, microeletrônica, informática - eis o tripé do negócio que mais cresce no mundo. Exatamente o autor da revolução tecnológica que produziu, sem aviso prévio, a globalização da economia.
Sim, vale insistir: a globalização é mero subproduto das tecnologias da informação. Explosão localizada em meados da década passada. Nada tem a ver com o tal de Consenso de Washington, essa fantasia política criada por certa esquerda ideologicamente desempregada. O Consenso de Washington rende charmosos ensaios acadêmicos. Especialmente quando discursam sobre a globalização como manifestação superior do imperialismo capitalista, apelidado de neoliberalismo. Alain Touraine deita e rebola nessa linha.
O Consenso de Washington não passou de uma reunião de cientistas políticos num prosaico evento de inverno na capital americana. Quando? Em 1991, quando a tal de globalização já rolava e se ralava com toda a força da natureza, tal como água de morro abaixo ou fogo de morro acima. Ou será que a falência do socialismo real foi maquiada pelos gênios do Departamento de Estado?
Criadora da globalização, a Tecnologia da Informação cobra uma retribuição da criatura: a abertura dos mercados do ramo por dentro dos tratados da Organização Mundial de Comércio (OMC). Prato quente na agenda de avestruz da conferência ministerial da OMC, esta semana, em Cingapura. Vanguardeiros do ramo, os Estados Unidos propõem drástica e urgente redução das barreiras comerciais para produtos de telecomunicação e de informática. Um mercado que deve faturar, este ano, em todo o mundo, perto de US$ 500 bilhões.
A abertura das negociações de um futuro acordo mundial no setor estava programada para fevereiro próximo. Escorados pelo Japão e pela União Européia, os Estados Unidos conseguiram antecipar a matéria para esta conferência de Cingapura. O setor corre contra o relógio da explosão do mercado, suspira a diplomacia americana.
O Brasil entende que tão relevante matéria não deve ser tratada com açodamento comercial. Por uma simples e boa razão, pondera o ministro Luiz Felipe Lampreia: o setor está em processo de desregulamentação e de desestatização em dezenas de países, Brasil no meio. Antes de um acordo mundial, é preciso redefinir as regras do jogo dentro de cada espaço nacional. Bingo.
Bigbusiness
- Nas telecomunicações, o processo de privatização, em todo o mundo, incluídas China e Cuba, já totaliza transferências de controle da ordem de US$ 174 bilhões. E acumula projetos de expansão e modernização de outros US$ 220 bilhões.
Limitações
- As privatizações no setor acabam de alcançar as poderosas estatais da Alemanha, Japão, Suíça e França. Cujas limitações não são de gestão, de eficiência, de tecnologia ou de mercado. São limitações físicas de um insumo básico: capital.
Prioridades
- Seguinte: com saltos de qualidade e de quantidade, o setor exige (re)investimentos vertiginosos. Acionista majoritário, o Estado não tem cacife para bancar o jogo. E tem prioridades maiores na área social, especialmente na educação.
Velocidade
- Estatais não podem fazer parcerias com capitais privados? Podem, mas não devem. Elas não têm velocidade de decisão. No setor, sob estrepitosa transformação tecnológica e compulsiva reordenação mercadológica, velocidade é fundamental.





