Perdendo a Rio+10
Comenta-se nos meios diplomáticos lotados na ONU, em Nova York, que o Brasil acaba de perder o capital político para o patrocínio da Rio+10. Um megaevento global disputado nos bastidores também pela África do Sul e pela Coréia do Sul. Rio+10 é a futura conferência de cúpula do meio ambiente, em 2002. Ela fará um balanço dos resultados da Rio-92 e ditará novo rosário de metas para 2012.
O Brasil era o favorito para a recepção também da Rio+10, com a presença de 204 chefes de Estado já inscritos junto à Comissão de Desenvolvimento Sustentável (CDS), da ONU. Era. Agora sujou. Uma dezena de deputados federais alienados, maioria na comissão mista do Congresso que reexamina a MP do Código Florestal, aprovou a ‘‘licença para desmatar’’ a Amazônia e o que ainda existe de verde no restante do território nacional.
Sim, a decisão ainda terá de trafegar em plenário (agora mais patrulhado que nunca). E ainda restaria o veto do presidente da República. Que já se antecipou, de caneta em riste: ‘‘Essa loucura não passará!’’
Eis o tamanho da loucura: a preservação da floresta nativa em propriedades rurais registradas na Amazônia seria rebaixada de 80% para 50% do perímetro das áreas tituladas. A notícia deu a volta ao mundo em menos de um segundo: em vez de desmatar menos, o Brasil vai desmatar mais. O desmatamento amazônico já totaliza 14% da cobertura natural existente em 1950.
No espaço desmatado a fogo, as perdas ambientais foram estimadas pelo Ipea, ano passado, em US$ 5,9 bilhões. Sem contar os prejuízos da exploração madeireira não-sustentável em florestas aparentemente intocadas. A ‘‘licença para desmatar’’ é economicamente asinina, ecologicamente sinistra, socialmente perversa e politicamente suicida.
Se os 10 dos 13 membros da comissão especial votaram em nome da ‘‘fronteira agrícola’’, a mando da bancada ruralista, azar do ruralismo patrimonialista, com sua empatia já perto de zero. Eles conseguiram sujar ainda mais a borrada imagem do Brasil lá fora e a própria imagem dos negócios rurais aqui dentro. A agricultura brasileira, desassistida e injustiçada, não merece esse tipo de lobby.
No mais, a pergunta que se faz qualquer ruralista de bom senso, tocado ou não pelo chamado ‘‘espírito de fronteira’’: por que desmatar a Amazônia num Brasil que ainda dispõe, só no cerradão central, mais perto e mais fácil, 110 milhões de hectares ainda inexplorados?


Secos & Molhados

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