Joelmir Beting
Deixem a Selic em paz
Ultrapassada mais uma pedreira do Fed, a economia global retoma o batente. O mundo ainda não acabou. A locomotiva americana não vai sair dos trilhos nem desacelerar nas curvas da monetarice criogênica de Greenspan e ilustres pares do Fomc. E a economia brasileira? Esta prefere aguardar novo purgante: o da nova mexida na Selic, taxa básica brasileira, daqui a uma semana.
O tal de mercado (meia dúzia de jovens consultores de bancos) está mais dividido que nunca: 1) o primeiro terço acha que a taxa tupiniquim pode (e deve) baixar meio ponto porcentual; 2) o segundo pensa que a Selic deve (e pode) subir um quarto de ponto porcentual; 3) o terceiro jura que os juros da base estão de bom tamanho e devem e podem permanecer no atual pavimento de 18,50% ao ano.
Bobagem. O que importa é discutir a redução (ou não) dos juros na ponta. Juros de quem toma dinheiro em banco para investir, produzir, inovar, ampliar, vender, empregar, consumir. Nesse front da economia real, a que segura o Brasil no colo, a coisa continua sem nexo. Autêntico garrote monetário da variedade asinina.
APosição de ontem, apurada pela coluna, na média de cinco grandes bancos, em duas raias a das grandes empresas e a das pequenas e médias. No hot money, empréstimo por um dia, as primeiras pagaram 2,96% mensais; as segundas, 3,88%. No desconto de duplicatas, em 31 dias, médias de 2,12% e 3,32%, respectivamente. No capital de giro prefixado, taxas anualizadas de 32,43% para as grandes e de 58,95% para o restante.
Nos terminais de consumo, o crediário de loja permanece na média de 7,15% ao mês nas grandes redes e de 8,67% nas pequenas. A dispersão é grande. Vai de 1,99% nos automóveis a 10,08% nos aparelhos de ginástica ou malhação (só pode ser malhação de Judas, que já passou). No cheque especial e no rotativo do cartão de crédito, as taxas mensais prosseguem acima de 9,50%.
Sem barulho, sem-vergonha e sem manchete. Porque o esporte nacional é discutir a coitada da Selic. Ela já vem fazendo a lição de casa. Em 15 meses, despencou de 42% para 18,50%. O detalhe: deflacionada pelo IGPM (FGV), no mesmo período, a taxa real da base interbancária já estaria na marca civilizada de 5,30%.
O que não falta é discussão esotérica sobre os fundamentos macroeconômicos que estariam bitolando a mexida (ou não) na já anódina Selic. Outra bobagem. Os técnicos do Copom estão plugados mesmo é nos soluços da Nasdaq e nas cólicas da Argentina. Afinal, quem não tem problemas inventa (ou importa) problemas.
Secos & Molhados





