Sem cara nem coroa
Carpinteiro intelectual do euro, moeda única européia, o economista canadense Robert Mundell, Prêmio Nobel de Economia de 1999, propõe a cunhagem da moeda única também para o Mercosul. Independentemente da maturação de políticas de ‘‘convergência macroeconômica’’ dos integrantes do bloco. O professor Mundell recomenda um atalho supimpa: a dolarização pura e simples.
Pura, talvez. Simples, nem pensar. O rebate é de economistas brasileiros e argentinos. Que já haviam surrado o assunto em 1995, quando a mesma proposta de dolarização sumária e coletiva foi assinada pelo economista alemão Rudiger Dornbusch. Matéria abrasiva retomada por Robert Mundell, esta semana, no Rio de Janeiro, durante o seminário ‘‘A Integração Monetária Européia Lições para o Brasil’’, promovido pela Fundação Getúlio Vargas.
Robert Mundell exagerou na quarta-feira: o dólar deveria ser a moeda única para toda a América Latina e não apenas para o Mercosul. Primeiro, porque facilitaria a integração aduaneira e econômica da futura Área de Livre Comércio das Américas (Alca), a partir de 2006. Segundo, porque ali pela altura de 2010, de acordo com ele, haverá apenas três moedas dignas do nome no mercado global: o dólar para as três Américas, o euro para a União Européia (então ampliada de 15 para 28 membros) e o iene para todo o Sudeste da Ásia. Incluída a China? A China daria preferência ao dólar... Para disfarçar a dolarização com casca e tudo, constrangimento político, Robert Mundell sugere a adoção do câmbio fixo atrelado ao dólar, no figurino do ‘‘currency board’’ (Conselho da Moeda) praticado pela Argentina desde junho de 1991. O câmbio fixo não dispensa a moeda nativa, mas aborta a inflação ainda no óvulo da carestia. O economista Affonso Celso Pastore, estudioso do tema, contesta Mundell com a mesma veemência com que trombara, anteriormente, com Dornbusch. Ele observa que a discussão do assunto perdeu o bonde da estabilização do real pós-choque cambial de 1999. E não tem lugar no bonde da reativação da economia pós-ajuste cambial de mercado (sem reinflação de demanda). Para Mundell, só a dolarização estabiliza a moeda e relança a economia.
Faltou dizer: a Argentina estabilizou a moeda, mas ainda não relançou a economia (em quase uma década de ‘‘currency board’’ severo). Diz Pastore que o Brasil 2000 precisa não de dolarização, medida técnica. Mas de um ajuste fiscal leonino, decisão política.

Secos & Molhados

mockup