Joelmir Beting
Joelmir Beting
Para que tanta afobação? O futuro sempre nos chega a uma velocidade constante de 60 minutos por hora.
Albert Einstein (1879-1955), cientista alemão
De bolsas e de urnas
O ajuste para baixo das eufóricas bolsas americanas, necessariamente estrepitoso, não foi ainda suficiente para fazer explodir a decantada bolha da irrational exuberance dos mercados. A própria Nasdaq, que concentra as ações de alta tecnologia e de muita fantasia, ainda resguarda uma valorização acumulada de 29% nos últimos 12 meses. Ela chora de barriga cheia.
Na tentativa de monitorar a sequência genética de toda uma década de prosperidade econômica com estabilidade monetária, o governo americano espera que Alan Greenspan, no comando do Fed, prossiga calibrando a taxa básica dos juros com toques refinados de stop and go. Tanto mais, em ano de sucessão presidencial.
Que não se perca de vista o ano eleitoral na avaliação dos movimentos do Fed. Nada contra a probidade técnica e a autonomia política de Greenspan. Mas é da tradição do monetarismo made in USA adotar expedientes de acomodação em temporada de caça aos votos. De que maneira? Afinando uma política monetária suficientemente austera para desencorajar o consumo excessivo (e inflacionário) e suficientemente flexível para não desaquecer os negócios e os empregos. Sem inflação nem recessão.
Inflação? Ela está na jaula de 1,5% ao ano por obra e graça não da austeridade monetária de Greenspan ou da neutralidade orçamentária de Clinton, mas dos ganhos de modernização das empresas e dos choques de concorrência nos mercados. Eis a face oculta da lua cheia da nova economia: a temível inflação de demanda virou miado de leão da Metro.
A verdadeira preocupação de Greenspan e de Clinton (para não dizer de todos os candidatos do Partido Democrata) é com o risco de um estouro na bolha de Wall Street. As bolsas hospedam o patrimônio coletivo de exatamente metade do eleitorado americano. Algo parecido, segunda-feira, com US$ 16,2 trilhões na Nyse e já com US$ 5,4 trilhões na Nasdaq. Outras bolsas do país estocam mais de US$ 2,3 trilhões. No total, o pé-de-meia estacionado em ações, pertencente a empresas, fundos, famílias e indivíduos, aproxima-se de US$ 24 trilhões. Ou duas vezes e meia o PIB americano. Capitalismo social é apelido. Democratização do capital é o nome. Bastaria um tombo de 20% nessa riqueza de papel (sem recuperação de mercado a médio prazo) para desencadear a recessão americana, locomotiva da economia global. Com a vitória esmagadora dos carrancudos republicanos nas eleições de novembro.
Secos & Molhados
Dependência
- No Brasil, os calafrios de Wall Street devem retardar a nova redução da taxa básica de juros, a Selic. Assunto que o Banco Central examina hoje na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom).
Imobilismo
- Para rebaixar a Selic de 19% para 18,50%, o Copom teve de aguardar o esvaziamento da recarga cambial de outubro, as eleições na Argentina, a virada do ano (com bug a bordo), a disparada do petróleo, a discussão prematura do salário mínimo...
Viés neutro
- O mata-burro agora é o nervosismo do mercado financeiro global. O que pode levar o Copom a manter a Selic em 18,50%, trocando o viés de baixa pelo viés neutro.
Na virada
- Uma pena! A nova fuzarca lá fora ocorre justamente quando a economia brasileira ensaia os primeiros passos trêmulos de uma retomada geral. O PIB voltaria a crescer este ano em pelo menos 4%, com IPC projetado para menos de 6%.





