Joelmir Beting




‘‘O telefone deu certo no mundo inteiro. Gozado. No Brasil, ainda não pegou.’’
Ziraldo Alves Pinto, cartunista (em 1993)
Entrando na linha
Pátria do malote e paraíso do recado, o Brasil começa a concretizar o sonho de d. Pedro II: espalhar a telefonia pela horizontal do território e pela vertical da sociedade. Em apenas quatro anos de privatização do monopólio, a plataforma nacional disparou de 13,8 milhões para 27,8 milhões na telefonia fixa e de 870 mil para 15,8 milhões na telefonia celular.
A bordo de investimentos privados da ordem de R$ 112 bilhões em dez anos (de 1996 a 2005), a telefonia fixa e a telefonia celular vão igualar-se na faixa de 58 milhões cada uma no final do período. O cálculo não leva em conta os investimentos das novas operadoras ainda nas dores do parto.
O importante é que a taxa de inclusão popular nos serviços de telecomunicação crescerá, em dez anos, feito capim barba-de-bode na primeira chuvarada de outubro: de 11 linhas por 100 habitantes para 17 por 100, hoje, e para 33 por 100, em 2005. Isso, na telefonia fixa. Na celular, a coisa já virou euforia coletiva. A taxa de inclusão já está em 10 por 100, a caminho igualmente de 33 por 100 em 2005.
A explosão física da rede nacional paga tributo ao próprio crescimento desembestado. A qualidade dos serviços (em volume duplicado na fixa e mais que decuplicado na celular) ainda nega linha e solta chiado aqui e ali. Um ‘‘transtorno de transição’’, agravado pela rapidez da migração tecnológica da plataforma analógica para a plataforma digital. Em São Paulo, o coeficiente de digitalização da rede saltou, em quatro anos, de 27% para 92% (em março). Falta até pessoal qualificado na operação do sistema.
Ontem, na abertura da Telecom Américas 2000, no Rio, o presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Renato Guerreiro, disse que a terceira medida de avaliação do sistema sob domínio privado (além da quantidade da oferta e da qualidade do serviço) é a da tarifação dos negócios do ramo. Um desafio que guarda relação com o ritmo de modernização das empresas (cortando custos) e com o grau de competição dos mercados (baixando preços).
Custos básicos e tarifas idem já foram generosamente rebaixados pós-privatização. Renato Guerreiro lembrou que, em certas áreas da cidade de São Paulo, por volta de 1994, o mercado paralelo da telefonia paulistana, de padrão soviético, chegou a cobrar até US$ 11 mil por uma linha telefônica analógica. Deve estar no Guiness Book, com o verbete: no Brasil, um telefone novo valia tanto quanto um carro zero. Hoje, a nova linha digital vale R$ 34,20.


Secos & Molhados
Novo Paste
- A Anatel serve-se da Telecom Américas 2000, no Rio, para abrir o novo plano quinquenal do setor, intitulado Perspectivas para Ampliação e Modernização das Telecomunicações (Paste), o plano joga com o período 2001/2005.
Salto duplo
- O Paste anterior, de 1996/2000, cobriu o período de privatização do Sistema Telebrás e de implantação dos projetos privados. O novo Paste aposta no ‘‘grande salto duplo’’ da rede nacional:
1) novos competidores; 2) novas tecnologias.
Fatia maior
- O setor deve investir, este ano, R$ 19 milhões. Outro tanto em 2001. A telefonia fixa responderá por 72% dos recursos totais. Ela será returbinada pela ampliação da malha de fibras óticas e pela estréia, em maio, também do sistema pré-pago.
Telecom
- Telecom Américas, no Riocentro, é realizada a cada quatro anos pela União Internacional de Telecomunicações (UIT). Em 1996, o tema central era o celular. Agora, é a Internet.

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