Joelmir Beting
Enlatando o sol
A bolsa é como ducha fria. A gente deve entrar e sair dela sempre correndo. De preferência, sem pisar no sabonete.Art Buchwald, colunista americano
Quanto vale a Microsoft? Quanto vale a Oracle? Quanto vale a Sun? Quanto vale a Cisco? Quanto vale a Intel? Quanto vale cada nova empresa de Internet? Por enquanto, elas valem mais do que fisicamente pesam no conceito do patrimônio líquido. Valem mais do que realmente vendem nenhuma delas figura no ranking das 100 maiores empresas do mundo em faturamento. Valem mais do que atualmente lucram não poucas ainda navegam no vermelho.
Em valor de mercado (ações negociáveis em poder do público e da própria empresa), as estrelas da Economia Digital estavam assim cotadas (em US$ bilhões), na última sexta-feira, 31 de março, antes da navalhada do juiz Thomas Jackson na fortuna pessoal de Bill Gates: 1) Cisco, 554; 2) Microsoft, 537; 3) Intel, 477; 4 Oracle, 262; 5) IBM, 231; 6) Lucent, 227; 7) Aol, 175; 8) Sun, 168; 9) Dell, 148; 10) SBC, 146.
Apenas cinco empresas da chamada velha economia teriam lugar entre as dez maiores da nova economia, em valor de mercado: 1) General Electric, 527; 2) Exxon-Mobil, 266; 3) Wal-Mart, 248; 4) Citigroup, 211; 5) AT&T, 194.
Odetalhe: a nova listagem anual das 500 maiores empresas dos Estados Unidos, em vendas, divulgada anteontem pela Fortune, registra uma única empresa da nova economia entre as 100 maiores americanas justamente a Microsoft. Ela saltou do 109º lugar, em 1998, para o 84º, em 1999.
A General Motors, com valor de mercado 9,7 vezes menor que o da Microsoft, continua na ponta em faturamento: US$ 189 bilhões. Ou 8,6 vezes maior que o da Microsoft.
O valor de mercado de qualquer empresa de capital aberto não está nos livros da ciência econômica. Está na percepção esotérica dos investidores em revoada. Não raro, atropelados por especuladores de carteirinha. Isso vale tanto para os átomos e borbulhas da Coca-Cola (marca mais valiosa do mundo) como para os bites e cliques da Amazon.com (ainda no vermelho).
O problema é que o valor de mercado da Coca-Cola está mais próximo dos fundamentos da economia que o valor pirotécnico da Amazon.com (loja virtual de produtos reais para pronta entrega física em qualquer biboca do mundo).
Única certeza, por enquanto, em 1929, na véspera do crash de outubro, a relação preço/lucro do Índice Standard & Poors 500 atingiu o pico 33. Sexta-feira, 31, pelo mesmo critério, coisa estava na cota 44. Vixe!
Secos & Molhados
Tem tutano
- Em 10 de março, a Microsoft valia US$ 552 bilhões. Em 4 de abril, US$ 473 bilhões. Ela continua faturando o sucesso do Windows 2000 e vai cevando lucros anuais acima de US$ 5 bilhões.
Sherman ACT
- A cidadania americana celebra a força salomônica do Sherman Act de 1890. Mercado livre, sim. Mas arbitrado no jogo bruto da concorrência por uma Federal Trade Comission que não vacila em sacar o cartão vermelho da lei antitruste.
Melhor assim
- Uma refreada na irrational exuberance americana é bom para as contas externas do Brasil: 1) esfria o apetite altista dos juros nos dois lados do Atlântico Norte; 2) desvaloriza o dólar na Europa e na Ásia.
Adiamento
- A panela de pressão da Nasdaq deixou escapar vapor pela válvula Microsoft. Está adiado o estouro da grande bolha.





