Joelmir Beting
Joelmir Beting
Na Internet, ninguém sabe ainda como se faz a coisa certa. Mas cresce o número dos que já sabem como se faz errado.
Juliano Bastide, sociólogo
Efeito manada?
Por natureza, vocação e necessidade, o mercado de bolsa não é técnico. Logo, não existe ajuste técnico para um mercado que não é técnico. Se o mercado fosse técnico, a bolha de Wall Street teria encolhido, suavemente, desde meados do ano passado, escalada dos juros do Fed. Não teria sequer expandido para até 55 vezes acima do valor patrimonial das empresas mais cortejadas pelos investidores regiamente gratificados.
Com ou sem o tropeço da Microsoft na lei antitruste Sherman, de 1890, a farra de Midas do mercado de ações, patrimônio coletivo de US$ 17,4 bilhões, pode estar, finalmente, com corda no pescoço. A ruptura da bolha contenta-se, não raro, com algum pretexto solene. Caso do atual Efeito Microsoft, justamente a empresa de maior valor de mercado desde a invenção da primeira S.A. americana, no século 18, a Singer (na revolução da máquina de costura).
Ou será que não? Há quem diga que o estouro da manada ainda pode ser travado e revertido, nesta quarta-feira, por um movimento orquestrado de realização de lucros. Ou seja: recomprar na forte baixa dos dois pregões da semana as ações vendidas ainda na alta acumulada pela Nasdaq até sexta-feira, 31 de março. Alta de 16% no primeiro trimestre sobre os 86% do ano passado.
Uma reversão, hoje, não afastaria o temor de um choque de mercado ainda no primeiro semestre. Ou no mais tardar até outubro.
Ah! Outubro! Com premonição digna de cartomante recheada de álgebra, o ensaísta Samuel Longhome Clemens (1835-1910), que assinava Mark Twain, já escrevia em 1908: Outubro é um mês perigoso para as bolsas de valores.Outros meses perigosos são fevereiro, dezembro, novembro, julho, março, janeiro, setembro, abril, junho, maio e agosto.
A verdade é que a explosão da bolha americana vem sendo aguardada desde a labirintite asiática de 1997. Ou desde que Alan Greenspan, o senhor dos mercados, meteu o dedo em riste na cara da irrational exuberance dos índices da Nyse e da Nasdaq. Especialmente o da Nasdaq, bolsa on-line que concentra as empresas hi-tech da chamada nova economia.
Exuberância irracional ou novo paradigma econômico? A análise convencional será realmente válida para radiografar a atual revolução tecnológica (e mercadológica) da microeletrônica e da biotecnologia? Dá para avaliar com segurança o valor de mercado de empresas de Internet? E o que é a Internet para os fundamentos da teoria econômica, ciência sinistra da escassez?
Secos & Molhados
Do padrão
- A Internet é a ditadura do padrão para a economia em rede. O valor do padrão não é de preço nem de qualidade. É de compatibilidade. Programas e sistemas compatíveis revalorizados pela crescente conectividade das novas tecnologias.
Do controle
- Exatamente por colocar o Windows em quase 85% dos PCs espalhados pelo mundo (e por forçar um segundo domínio do padrão com o Internet Explorer), a Microsoft de Bill Gates chegou a valer, em bolsa, US$ 555 bilhões.
Do estouro
- A bolha digital da Nasdaq já vinha fazendo ar por uma dezena de furos. No primeiro trimestre, queda de 70% nas ações da Linux Systems, rival da Microsoft. Ou de 68% no valor da GlobalStar, atingida pelos estilhaços da Iridium.
Irracional?
- Estréia hoje no mercado editorial o livro Irrational Exuberance, do economista Robert Shiller, professor em Yale. Lançamento da Princeton University Press. Amanhã, nesta coluna.





