Joelmir Beting




‘‘Ainda sou do tempo em que o ar era limpo e o sexo era sujo. Naquele tempo, a geladeira era branca e o telefone era preto.’’
Art Buchwald, colunista americano
Terceira Geração
Lembram-se do fax? Já era. Lembram-se do televisor? Já era. Lembram- se do computador? Já era. Lembram-se do celular? Já era. Eis o fio da conversa nos lares e nos bares em abril de 2005. Vem aí a família de artefatos digitais da multimídia/megamídia, já na Idade da Interconectividade sem fio.
O cenário de 2005 está esboçado em relatórios da União Internacional de Telecomunicações (UIT) e empolga os debates da Américas Telecom, instalada esta semana no Riocentro. O vice-secretário-geral da UIT é o brasileiro Roberto Blois. Ele disse ontem que o celular realmente ‘‘já era’’. Com a chegada do ‘‘wireless’’ (sem fio) de terceira geração, a telefonia celular entrega o bastão de ouro à multimídia móvel. Um pequeno portátil para voz, imagem, dados e textos. A nova corrida ao ouro já começou. Na Inglaterra, por exemplo, o governo disparou um leilão para cinco licenças do celular de terceira geração. Com essa ‘‘venda de vento’’, o Tesouro britânico esperava arrecadar US$ 3,1 bilhões. O mercado admitia até US$ 4,7 bilhões.
Governo e mercado erraram. Na terceira rodada, anteontem, a receita total já estava em US$ 25,4 bilhões. Na quarta e na quinta rodadas, encerrando o leilão ainda em abril, a coisa poderá acumular estrepitosos US$ 38 bilhões, nos cálculos refeitos da City.
A briga pelo direito de exploração da megamídia britânica é realmente de hipopótamo contra rinoceronte. Por falta de bala no tambor, dois magnatas festejados já tiraram o corpo fora desse leilão fatiado: Rupert Murdoch e Richard Branson. Vodafone Air Tourch e British Telecom dividem os principais arremates. A Telefónica espanhola, com fôlego de sete gatos, aparece em terceiro. Analistas financeiros da City torcem o nariz. Essa briga é quase suicida. Haverá rentabilidade suficiente, em prazo razoável, para recuperar tamanho investimento? No mínimo, está-se pagando dez vezes mais pelo valor real do negócio anteriormente estimado. O custo extorsivo do leilão acabará pesando no bolso do usuário futuro. Entre deslumbrado e preocupado, o Tesouro acaba de anunciar uma isenção fiscal por 12 anos para os vencedores do leilão.
Internet móvel, eis o filão. A querida Web estará logo mais acessada por tudo e por todos. E com qualquer engenhoca portátil, sem micro mas com tela, plugada em TV digital de alta resolução. Para quem gosta da sopa de letrinhas do cyberspace, aqui vai a pista: a Internet móvel européia terá plataforma tecnológica timbrada pela convergência W-CDMA com a TD-CDMA no sistema único UMTS. Com velocidade de 2 megabits por segundo. Para 2002.


Secos e Molhados
Escalada
- O primeiro bilhão de usuários da telefonia fixa será alcançado em 2004. O dobro dos 490 milhões de hoje. Na mesma data, coincidentemente, haverá o mesmo número de assinantes da telefonia celular. Fonte: UIT.
Virada
- No mundo, a telefonia sem fio (wireless) ultrapassará a velha telefonia com fio (wireline) a partir de 2005. No Brasil, idem. Na Finlândia da Nokia, o celular já domina 64% do sistema.
Inclusão
- Nos países pobres, o celular pré-pago predomina. A telefonia fixa, em 123 países da UIT, continua abaixo de 10 assinantes por 100 habitantes.
Ciscando
- A explosão dos circuitos com Internet Protocol (IP) fez da Cisco (fundada em 1989) a empresa mais valiosa do mundo (US$ 542 bilhões). Bateu a Microsoft (que caiu, nos últimos sete pregões, de US$ 554 bilhões para US$ 476 bilhões).

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