Joelmir Beting




‘‘A estabilização da moeda deve ser o fator condicionante. A reativação da economia é sempre o fator condicionado.’’
Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia
Soltando amarras
Com a inflação outra vez perto de zero e com o capital externo reatando namoro firme com o Brasil, estão recriadas as condições técnicas e políticas para nova redução da taxa básica de juros, vulgo Selic. Decisão que o BC brasileiro pode anunciar hoje, independentemente da decisão do BC americano tomada ontem.
O que realmente importa, nesta altura do calendário, é a nova vitória por pontos no tablado da estabilização dos preços. A inflação não conseguiu virar o jogo nos contra-ataques que desferiu pós-choque cambial de janeiro/fevereiro e pós-tarifaço trapalhão de julho/agosto.
Igualmente não obteve êxito nas recargas de outubro/novembro. E acaba de jogar a toalha ao negar fogo sob o recente doping da gasolina.
No sétimo ano de carreira, desde o dia 1º, o Plano Real está mais vivo que nunca. Sem congelamento, sem intervenção, sem tabelamento, sem reindexação, sem âncora fiscal e sem âncora cambial. Falava-se que o Plano Real mal passava de uma ‘‘ficção cambial’’. Ou seja: no dia em que o Brasil cor de anil abrir as algemas do câmbio, em regime de mercado aberto, o Plano Real desaparece na primeira boca-de-lobo da esquina.
Ficção não era o Plano Real. Era a âncora cambial.
Âncora cambial verdadeira (e transitória) foi a da carpintaria monetária da URV. Uma mesma entidade monetária ousou ‘‘clonar’’ o dólar (moeda) e a taxa de câmbio atrelada ao dólar (indexador). O máximo de dolarização para desencadear o processo voluntário e progressivo de desindexação de preços e contratos em geral.
Que não se perca o fio da meada. A desindexação vitoriosa deu carona a choques de competição nos mercados e de modernização nas empresas (paradigma americano). Eis o DNA da estabilização dos preços nos terminais de consumo. Onde se deu, ano passado, a trava maior da inflação. Não houve repasse de custos reais de produção (acima de 25%) para preços finais de consumo (abaixo de 10%). A austeridade monetária nada teve a ver com isso.
Ah! Então, foi a recessão! Negativo. A cesta básica continua aquecida e a inflação acumulada dela não tem passado de 25% desde a estréia da nova moeda em julho de 1994. Competição com modernização, eis a questão. Efeito Carrefour, se preferem.
Tradução: dá para afrouxar o garrote monetário da economia sem reatiçar as brasas da carestia. E outra não tem sido a estratégia do Banco Central de Armínio Fraga. Sem alarde e sem aviso prévio. Essa operação é melindrosa. Requer um procedimento gradualista, com direito ao exercício monetarista do ‘‘stop and go’’.




Secos & Molhados
Plano Brasil
- Entenda-se por Plano Real o programa de estabilização da moeda (ou dos preços). E só. A reativação da economia e do emprego, a redistribuição de renda, o saneamento fiscal ou o espancamento da corrupção – isso tudo é tarefa de um Plano Brasil.
Farol de neblina
- Carestia outra vez na jaula melhora previsibilidade das metas de inflação (‘‘targeting inflation’’) do Banco Central. E favorece, politicamente, a adoção oficial do núcleo da inflação (‘‘core inflation’’) para robustecer ainda mais a previsibilidade da evolução de preços, custos e juros.
Núcleo da inflação?
- Sim, calcula-se a variação de uma vasta cesta de preços, sem levar em conta os ‘‘choques de oferta’’ por obra de sazonalidades e acidentalidades. Desvios que pervertem transitoriamente o curso natural dos índices.
Já vem tarde
- Quem mais precisava do ‘‘core inflation’’ era a economia indexada. Quando uma chuva de granizo na horta de Suzano, SP, inflacionava a tarifa de ônibus no Paraná e o aluguel do barraco em Belém do Pará.

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