Joelmir Beting
Joelmir Beting
A riqueza desloca-se do patrimônio físico para o capital intelectual. Mas ninguém sabe ainda o valor verdadeiro desse velho potencial.
Esther Dyson, consultora americana de Internet
Dirigindo o tronco?
A austeridade monetária made in Usa e abusa navega na crista de um ciclo de expansão sustentada que já dura 108 meses corridos. Expansão de uma economia nacional que deve furar, este ano, a barreira de US$ 10 trilhões. Ao elevar hoje a taxa básica de juros de 5,75% para 6% ao ano, Alan Greenspan imagina estar zelando pelo equilíbrio geral do sistema, como manda a cartilha do monetarismo destilado pela Escola de Chicago.
Alan Greenspan e ilustres pares do Fed tentam exercer o papel de guardiães da Felicidade Nacional Bruta. Espécie de canto do cisne da velha economia de comando por sobre a irrational exuberance da nova economia de mercado. E burocratas em ação, com cobertura da mídia maior que a de chefes de Estado, comportam-se como formigas aboletadas em tronco que desce o rio. Cada uma delas acredita, piamente, estar dirigindo o tronco.
Não é o que ocorre. Quem realiza o milagre americano do crescimento econômico com estabilidade monetária não existe bolha macroeconômica com duração ininterrupta de nove anos não é a austeridade monetária do Fed nem a neutralidade fiscal do governo. A façanha deve ser atribuída aos choques interligados de competição nos mercados e de modernização nas empresas.
Sim, a dinâmica do capitalismo opulento sempre foi essa. Mas nunca se viu tamanha transformação com tanta profundidade, tanta abrangência e tanta velocidade. No caso americano, o plantio do fenômeno ocorreu entre 1985 e 1994. A colheita dá-se entre 1995 e 2004. Com novo replantio agora em 2000. Para uma próxima safra de mudanças ainda mais profundas, abrangentes e velozes!
Alan Greenspan sabe disso, mas não pode, por dever de ofício, admitir isso. Ou seja: confessar que os choques de competição e de modernização da economia pesam mais na expansão dos negócios e na contenção dos preços que a elevação intermitente de juros, com indefectível aviso prévio.
Patrocinadas pela explosão das tecnologias da informação, a modernização reduz custos e a competição trava preços. Desde 1995, o aparelho econômico dos Estados Unidos registra ganhos continuados de produtividade de 3,5% ao ano. Exatamente o dobro da média de 1970 a 1994. Essa reserva de potência returbina lucros, aumenta salários, expande negócios, reinventa mercados, congela (e rebaixa) preços, amplia (e melhora) empregos, reinjeta investimentos produtivos e recicla a poupança seletiva no mercado de ações mais eufórico de todos os tempos. Exuberância irracional?
Secos & Molhados
Autoridade
- No mais, nada de novo na frente ocidental. A sociedade americana, viciada em liberdade, gosta de sentir na nuca algum sopro de autoridade. Alan Greenspan (e não Bill Clinton) preenche esse anseio coletivo.
Stop and go
- O exercício da autoridade, no caso, nada mais é que afrouxar ou apertar o crédito, aumentar ou rebaixar a taxa básica de juros. Nas horas vagas, Washington levanta tarifas para proteger negócios privados atingidos pela farra dos importados.
Efeito money
- Dia 6, no Massachusetts, Alan Greenspan encheu a bola da Nova Economia, atribuindo-lhe parte do milagre americano. Mas não perdeu a viagem: o atual Efeito Riqueza está grávido de uma futura inflação de demanda.
Onde há fumaça
- Para Greenspan, o novo potencial de consumo ou de demanda tende a superar a velocidade e a capacidade de resposta da produção ou da oferta. E a importação suplementar já aponta para um déficit comercial de US$ 1 bilhão por dia!





