Joelmir Beting ‘‘Países e instituições que não levam em conta a realidade são pagos com a mesma moeda. A realidade também não os leva em conta.’’ Karl Heindrich Marx (1818-1883), filósofo alemão. O leão vai miar? Nada de dramático na cautelosa escalada dos juros de base nos Estados Unidos. O mercado financeiro internacional já está ajustado para uma taxa Fed de até 6,75% ao ano, em quatro aproximações de um quarto de ponto porcentual sobre a taxa de 5,75% em vigor desde fevereiro. Ela pode subir para 6% na semana que vem, para 6,25% em maio, para 6,50% em julho e para 6,75% em setembro. Esse pico seria mantido para a virada do ano. Esse exercício de austeridade monetária seria de bom tamanho para refrear o aquecimento tido como excessivo da economia americana – sem desencadear solavancos pelos vagões atrelados à locomotiva global. O Brasil é o décimo vagão desse comboio. Alan Greenspan tem nas mãos os comandos do processo de ‘‘ajuste técnico’’ da prosperidade americana. Ele aposta tudo na panacéia monetarista do ‘‘stop and go’’. Com a intenção reafirmada de matar dois coelhos com uma só tijolada: 1) desarmar a bomba-relógio da inflação de demanda amoitada no ventre da obesidade econômica dos Estados Unidos; 2) monitorar a contenção da euforia do mercado de ações, novo endereço da Felicidade Nacional Bruta para exatamente metade da população americana. Atrelado à caneta de Greenspan, o Brasil não tem espaço lá fora para rebaixar a taxa básica aqui dentro. A Taxa Selic de 19% deve continuar congelada (desde outubro) para a travessia de abril. Na hipótese de que o Fed se contente com nova correção de 0,25%. Analistas de Wall Street não descartam um tranco de 0,50% – que seria mantido até julho, com viés de alta para neutro. Haveria fuga de capitais do Brasil? Não. Temos gorduras de sobra nos rendimentos da renda fixa. Temos elástico ainda frouxo para puxar no mercado de ações. Temos o ingresso embalado de capitais produtivos das multinacionais. Temos uma redução das remessas anuais de US$ 76 bilhões para US$ 58 bilhões. Temos uma balança comercial passando do vermelho para o azul. Temos inflação outra vez perto de zero. Temos um ajuste cambial de mercado já praticamente estabelecido. Sobretudo, temos uma nação ainda por fazer e refazer nos campos do econômico e do social. Uma nação de peso global – se engatar duas décadas de juízo. O problema é o da intermitente sinistrose verde-amarela. Deixa-se tudo para o ‘‘depois do Fed, dia 21’’. Ou para o ‘‘depois da Opep, dia 27’’. Escapismo digno de um país sem tutano, refém da síndrome do bode expiatório. Ou do bode conspiratório. SECOS & MOLHADOS Monitor - Na tomada de decisão dos governos e das empresas, vale mais aqui no Brasil a elevação (ou não) das taxas do Fed que a realização (ou não) das metas do FMI. Da escala - Não é preciso rebaixar a taxa básica para derrubar os juros da usura de bancos e de lojas. A nova redução dos compulsórios aumenta a oferta de crédito. Bancos sérios preferem ganhar menos sobre mais do que mais sobre menos. Ou será que não? - Sem novo corte da Selic, folgas bancárias tendem a ser reaplicadas em títulos públicos ainda docemente rentáveis. Sem trabalho e sem risco. Novo arrocho - Em abril, os bancos terão de aumentar as provisões de segurança sobre créditos concedidos. Em nove faixas as provisões alcançarão até 100% do valor do empréstimo. Pode?

mockup