Joelmir Beting
Joelmir Beting Economistas gostam de projetar tragédias e jornalistas adoram publicá-las. O problema, mesmo é quando os dois se encontram. Fernando Henrique Cardoso, presidente da República Quaresma do Brasil Dólar abaixo de R$ 1,75. Inflação perto de zero. Balança comercial no azul, agora em março. Ingresso de capitais produtivos deve ficar acima de US$ 7 bilhões no primeiro trimestre. Em declínio o desemprego industrial. Em expansão o crédito bancário em geral. A construção civil projeta crescimento de 20% ao ano. Nova safra recorde de grãos entra no mercado. Remessa anual de dólares pode recuar de US$ 76 bilhões para US$ 58 bilhões. O petróleo nacional alcança três barris em cada quatro do consumo interno. E não menos importante: o carnaval já passou. A reversão das expectativas (sinistras) dos agentes econômicos promove a retomada de projetos engavetados desde outubro de 1997, primeiro choque da crise global. Ou como diz José Maria de Jesus, picando fumo de corda: Se o Brasil não acabou em 1999, só pode melhorar em 2000. Afinal, ele continua maior que o abismo. Com desajuste fiscal e tudo? Pela Brasília que temos, o melhor que se pode desejar das contas públicas é que elas não piorem. O desfibramento político da reforma tributária é o elo perdido da estratégia de recuperação da economia com estabilidade da moeda. O atual aparelho tributário é economicamente suicida, juridicamente caótico, politicamente ladino e socialmente perverso. Só. E a Lei de Responsabilidade Fiscal? Se ela não for desfigurada pelas penadas do Congresso, estaremos dando uma descarga sanitária nos usos e nos abusos da classe política brasileira. Autêntica Lei de Responsabilidade Moral. Que me foi assim resumida, em e-mail, por Renavan de Alcântara, político nordestino, parodiando Santhiago Dantas: Com essa camisa-de-força administrativa, nós vamos ter a verba, mas não mais o dinheiro. Todo cargo eletivo, doravante, não passará de um grande conto-do-vigário. Faltou dizer: sem a chave do cofre fiscal e sem a cunha da moeda falsa, os futuros gestores da coisa pública (que na cidade de São Paulo virou mais coisa do que pública) não terão dinheiro sequer para bancar o arrocho do funcionalismo em pé de greve. Até porque perderam o guarda-chuva dos bancos estaduais e a tal de dona Nicéa religa as fornalhas políticas da cremação dos precatórios. Resumo da Quaresma da Botocúndia: o setor privado começa a sair da fossa e o setor público continua atolado no brejo. Resta saber até que ponto da rampa a recuperação da economia conseguirá carregar o caixão sem alças de um sistema de governo que não governa porque não se governa e não se deixa governar. Secos & Molhados Sem mistério - Dólar abaixo de US$ 1,75 simplesmente retrata a realização, pelo mercado, da chamada taxa de equilíbrio do câmbio. Em liberdade, o mercado não admite pagar pelo dólar um só tostão acima ou abaixo do que ele realmente vale ou pesa. Já foi maior - Pela metodologia de certo banco estrangeiro, a taxa de equilíbrio (sem choques de oferta) era de R$ 1,44 há exatamente um ano. Chegou a R$ 1,84 em outubro. Não passou, em fevereiro, de R$ 1,72. Quem ganha? - Nas bitolas de uma taxa cambial de equilíbrio, reduz-se a incerteza dos negócios para exportadores, importadores (que podem ser os próprios exportadores), investidores e devedores (lá fora). Tipo banda - Câmbio livre é mercado tipo bolsa que funciona tipo banda (hoje de R$ 1,70 a R$ 1,80). Com direito ao risco cambial das oscilações espasmódicas de demanda por dólares.





