Joelmir Beting ‘‘A única forma de prever o futuro é inventá-lo. Mas só para quem sabe e quem pode fazê-lo.’’ Alan Kay, cientista americano Vai virar um clique Dentro de mais cinco anos, se tanto, não haverá mais bolsas físicas para os mercados virtuais de ações. A poderosa Nyse, já desafiada estrepitosamente pela Nasdaq on-line, vai virar museu em Wall Street. Ela sobreviverá no 14.º andar de alguma nova torre de vidro na área. Fazendo o quê? Respondendo pela operação e custódia dos pregões eletrônicos ‘‘full-time’’, epicentro de um mercado acionário global. Pregões ininterruptos, rodando 24 horas por dia, de segunda a domingo, incluído o Dia de Ação de Graças... A projeção atrevida é dos consultores americanos William Carnoy e Rebecca Hellriegel, autores do ensaio Too Much, Too Fast sobre os grandes choques da Nova Economia nos governos, nas empresas, nos mercados, nas profissões. As corretoras e-trade, de padrão Charles Schwab (avaliada em US$ 42 bilhões), estarão confinadas a serviços de consultoria para clientes preferenciais. O mesmo destino de empresas digitais, exclusivamente, está reservado aos bancos em geral. Em número reduzido, os bancários terão status de consultores financeiros em mercados cada vez mais movediços. A agência da esquina desaparece. O home-banking e o office-banking, funcionando também 24 horas por dia, nos 365 dias do ano, não passarão, fisicamente, de um cartão inteligente para uma economia sem cheque e sem dinheiro. A moeda será um clique. O banco virtual da moeda chipada já existe. Chama-se Softbank. Fatura apenas US$ 5 bilhões por ano e emprega menos de 950 profissionais. Mas, na linha de frente das ‘‘estrelas da Internet’’, já vale no mercado de ações americano nada menos de US$ 151 bilhões. Ou nove vezes mais que o Bradesco, maior banco privado brasileiro, com receita anual de US$ 21 bilhões e 64 mil funcionários. O Softbank vale tudo isso mesmo? Quase duas General Motors? Os investidores americanos pensam que sim. Afinal, ‘‘o mercado de ações nada tem a ver com a teoria do valor da economia clássica’’, como escreve, de dedo em riste, o analista Edward Chancellor. Ele é autor de um livro que dá arrepio na nuca já no título: Devil Take the Hindmost (O Demônio Pega o Último da Fila). Yes, o mercado não é técnico. Logo, não haverá um ajuste técnico para uma bolha que também não é técnica. Oscilações diárias fazem a rotina do mercado. O problema é o tamanho e o conteúdo da tal bolha de Wall Street. O estouro dela está sendo aguardado desde outubro de 1997. Tal como o grande terremoto da Bacia de Tóquio. Pelo jeito, a sísmica da bolsa tem a mesma precisão da sísmica do solo: nenhuma. Secos & molhados Pouso suave? Alan Greenspan tenta monitorar o ‘‘ajuste técnico’’ de um mercado que não é técnico. O ajuste seria um pouso suave do Índice Industrial Dow Jones (Nyse) abaixo de 7 mil pontos. Está em torno de 10 mil e já raspou o travessão de 13 mil. E a Internet? A ‘‘irrational exuberance’’ tomou como refém a Nasdaq virtual. Em dois anos, escalou de 2 mil para 5 mil pontos. Este ano, acumula alta de 27% (sobre 86% de 1999). A Nyse já perdeu, este ano, quase dois terços do ganho de 26% em 1999. Efeito boiada O risco está no pânico coletivo de padrão 1929, com arremedo em 1987. Risco de abandono em massa das ações. Esse mico, do tamanho de um gorila, precisa de apenas três pregões para estourar a bolha. Mui humano Em bolsa, a maioria entra na alta e sai na baixa. Na baixa, a sorte é de quem sai primeiro. Porque, no fim da fila...

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