Joelmir Beting
Joelmir Beting Se é para recriar empregos, um plano de renovação da roupa abriria mais vagas no País que o plano de renovação da frota. Celso Ming, jornalista Jogo de empurra O plano de renovação incentivada da frota sucatada produziria um aumento de 12% nas vendas de automóveis no mercado interno. Algo parecido, nos próximos 12 meses, a 140 mil unidades. Sobre essa adição de mercado é que seriam calculados os incentivos fiscais da União (IPI) e dos Estados (ICMS). No IPI, a renúncia fiscal seria da ordem de R$ 100 milhões, a preços de hoje. Essa foi uma das conclusões do seminário realizado ontem, em São Paulo, por fabricantes, distribuidores, sindicatos, governo paulista e governo federal. Tenta-se um acordo nacional (com os demais Estados) até meados de abril. A discussão do formato e do conteúdo do plano já dura dois anos. Na Argentina, está vigorando desde julho do ano passado. Na Inglaterra, está em debate desde 1990. Na proposta repassada no seminário de ontem, ratificou-se a idéia do bônus equivalente a R$ 1.800 para carros com mais de 15 anos de pauleira. Numa segunda etapa, o benefício abrangeria veículos a partir de dez anos de uso. Estima-se que a União abriria mão de R$ 700 por carro substituído. Os Estados entrariam com R$ 500 e montadoras e distribuidoras rachariam R$ 600. Tecnalidades tributárias e dificuldades políticas retardam a decolagem do programa. Há quem proponha o aguardo do parto de montanha da reforma tributária, ontem reativada na Câmara Federal. Há os que defendem a adoção de incentivos fiscais para alimentos, remédios e casas populares - e não para automóveis. E há os que lembram que o melhor plano de renovação da frota está igualmente engavetado nos gabinetes planaltinos: a adoção do sistema de inspeção veicular obrigatória. Cercado de lobbies por todos os lados. A matéria é controversa. O impacto sobre o emprego setorial seria mínimo - autêntico miado de leão. Até porque seria um plano transitório ou emergencial, tipo bolha de consumo. Foi o que ocorreu na França em 1995/96 e zé-finí. Questiona-se ainda o baixo poder de fogo do bônus de R$ 1.800. Pouco mais de um décimo do valor do carro zero mais barato ou menos caro. O brasileiro motorizado de baixa renda não tem como encarar financiamentos da casa própria nem do carro próprio com juros ainda de 70% ao ano para o capital de giro das lojas ou de 110% ao ano no crediário de carros usados. Não há como relançar mercados movidos a crédito com prazos curtos e juros loucos. O mercado de televisores despencou de 8 milhões de unidades, em 1996, para 4 milhões no ano passado. As 12 fábricas do ramo têm capacidade instalada para 13 milhões. Ou elas se mudam para a Austrália ou pegam o atalho das fusões. Secos & Molhados Desconto - A melindrosa usinagem do bônus de R$ 1.800 equivale a um desconto do balcão de 10% na média dos carros abaixo da linha média dos modelos em oferta. Decisão de mercado. Ferro-velho - A frota no bagaço atrapalha o trânsito, aumenta a poluição e provoca acidentes. A sucata rodante é feita por 70% de pobreza e por 30% de desleixo. Ou de descaso pela própria vida. Sem opção - Em automóveis e caminhões remendados, 5,5 milhões de brasileiros sacam da economia informal o único sustento da família. Que seria substituído por um bônus sem alcance. Com deságio no repasse. Inspeção? - A frota velha acabará trombando lá na frente com a inspeção veicular obrigatória. Claro, se esta não virar uma simples indústria de carimbos. Bem Brasil.





