‘‘A gestão da economia é um processo de ajustes constantes a coisas que nunca ocorreram antes.’’
John Kenneth Galbraith, economista canadense
Plano Real, Ano VII
O Plano Real foi acionado a partir da introdução da Unidade Real de Valor (URV) em 1.º de março de 1994. Ou quatro meses antes da substituição do cruzeiro bichado pelo real turbinado. Nos últimos 12 meses do cruzeiro, a inflação brasileira bateu nas traves dos 5.000%. Lembram-se?
Pouca gente se dá conta disso. Entre dois bocejos de tédio, há quem tenha saudade da inflação indexada. Outro dia, um empresário do setor de decoração pegou-me pelo braço: ‘‘Antes do real, a inflação não passava de mera ficção contábil. Eu estava com os preços dolarizados pela porta dos fundos e pela porta da frente e nunca deixei de ganhar dinheiro com isso. Hoje, sobrevivo no fio de gilete da redução dos custos. Ano passado, por exemplo, meus custos cresceram 29% e não consegui repassar para o varejo nem mesmo um terço disso. Minha produtividade já está no osso. Até porque, continuo pagando 53% ao ano pelo meu capital de giro...’’
Crédito bancário. Eis o quinta-coluna do Plano Real. Um garrote financeiro mais perverso para os negócios privados que a gulosa recarga fiscal. Um certo banco estrangeiro fechou o ano com ganho líquido de 51% sobre o respectivo patrimônio líquido. Pode?
Engatando hoje o sétimo ano de carreira, o Plano Real merece um tratamento monetário de padrão internacional. Afinal, não são o ‘‘spread’’ bancário e a cunha fiscal abusivos que estão segurando a inflação pelos chifres. A façanha é da tríade desindexação-concorrência-modernização. Eis por que o Índice de Preços no Atacado (IPA) não mais consegue funcionar como ‘‘leading indicator’’ do Índice de Preços ao Consumidor (IPC).
Ou como escreveu a respeito o ex-ministro Delfim Netto, sopesando a bolha inflacionária de outubro: ‘‘Não é verdade que a inflação no consumo esteja grávida da inflação no atacado. Não houve e não haverá repasse de custos para preços.’’ Faltou dizer: o Plano Real, em matéria de estabilização, não registra sintomas de fadiga do material. Ele que foi recepcionado como ‘‘mais um plano meramente eleitoreiro’’ por 7 analistas em cada 10.
Há exatamente um ano, dólar cravando ‘‘máxi’’ de 80%, estabilização desfalcada repentinamente da tal de âncora cambial, chegaram a projetar para o ano um IPCA acumulado de até 80%... Na ocasião, a coluna soltou o lembrete: nunca mais haverá inflação de 80% ao ano no Brasil. Com a memória da indexação ainda acesa, a inflação anual só poderá ser de 8% ou de 800%. Ficou no 8%. Mesmo com o tarifaço trapalhão pós-choque cambial idem. Ou seja: uma inflação de governo e não uma inflação de mercado.




Secos & Molhados
DNA do real
- O que se transformou em real, em 1º de julho de 1994, não foi o cruzeiro. Foi a URV. Que o então presidente Itamar Augusto Cautiero Franco chamava mineiramente de ‘‘urve’’.
Foi a Dolly
- E de onde veio a URV? Do planeta Marte? Não. Ela foi a Dolly do dólar (e a taxa de câmbio do dia atrelada ao dólar). Verdadeira clonagem de laboratório (na PUC-RJ).
Um milagre
- Façanha da URV: desindexar a economia mais indexada do mundo em moeda nacional. A urvização de preços e contratos, durante quatro meses, foi uma dolarização suprema.
Uma fábula
- Na véspera da reengenharia monetária, Mário Henrique Simonsen (1935-1997) disse-me na televisão: ‘‘É tudo muito simples. Amanhã cedo, 160 milhões de brasileiros vão dividir os valores de todas as coisas por 2.750. Fácil, não?’’