Joelmir Beting
Joelmir Beting
Quanto vale no mercado um barril de petróleo? Que tal perguntar quanto ele custa na produção? Ele custa, hoje, menos de US$ 3,50.
Norbert Riley, consultor inglês.
De bom tamanho
Enquanto a Opep remonta, em Viena, a estratégia de cotas e preços para continuar monitorando o mercado global do petróleo, analistas brasileiros fazem simulações dos impactos da conta externa dos barris na evolução interna dos índices de inflação, das taxas de câmbio, das taxas de juros e das contas públicas. Com sobras para os níveis de consumo, produção e emprego.
Nada de dramático no rascunho de tais cenários. Até porque a maioria das apostas aponta para um brent médio de US$ 21, de abril a dezembro. Ano passado, pinta de terceiro oil-shock, o preço médio do barril de referência (pela média aritmética-simples das cotações diárias do brent) não passou de exatos US$ 17,17. Sim, abaixo do preço médio de 1997, que foi de US$ 17,76 (pelo mesmo dólar médio de 1999). Sem choque e sem chilique.
Pois bem. Barril a US$ 21 produziria, entre nós, uma inflação gregoriana de até 7% (IPCA). A taxa básica de juros, a Selic, ficaria pelo piso de 17,75% lá na ponta (reprisando a taxa real de 1999). O dólar oscilaria pela banda de mercado de R$ 1,75 a R$ 1,85. A esotérica conta-petróleo alcançaria um saldo de R$ 5 bilhões. O superávit da balança comercial bateria nos US$ 5 bilhões. O déficit externo em conta corrente recuaria para 4,1% do PIB. A dívida interna baixaria para 45% do PIB. E o PIB cresceria 4%.
Nada de novo na frente ocidental. Aquele mesmo barril a US$ 21 (sempre pelo dólar médio de 1999) também não teria massa crítica para acionar os retromotores da prosperidade americana. Nem mesmo para esvaziar os isotônicos da convalescença européia e asiática.
A verdade é que houve muita emoção e pouca reflexão no trato da escalada do petróleo no ano passado. Ainda a dólar médio de 1999, a Agência Internacional de Energia (AIE), vizinha da Opep em Viena, lembra que o mesmo barril tipo brent chegou a valer US$ 72 na travessia de 1980, segundo oil-shock da Opep. Ou US$ 39 no último trimestre de 1973, o do primeiro tranco opepiano.
Vale o lembrete. Em 1980, o Brasil importava 83% do consumo nacional de derivados. Agora, em 2000, nosso coeficiente de dependência ou vulnerabilidade não vai passar de 25%. Ou seja: a gente importava quatro barris em cada cinco, pagando até US$ 72 o barril. Agora, apenas um barril em cada quatro, pagando menos de US$ 20 na média deste quadriênio 1997/2000.
Nos Estados Unidos, outro comparativo retumbante, com dados da AIE. O consumo de energia por unidade de produto/serviço declinou 53% desde 1975. E o peso do petróleo na economia nacional, no mesmo período, despencou de 9,2% para 3,1% do PIB.
Secos & Molhados
Muita gordura
- O barril custa menos de US$ 3,50. Incluído o nosso, o da Bacia de Campos. Acima de US$ 20, a Opep chora de barril cheio.
Cheio de ouro.
Quanto vale?
- O valor de mercado é calibrado até pela taxa de extinguibilidade do combustível fóssil, sem reposição. Ou mesmo pelo custo real das fontes alternativas de energia. Além do efeito bolsa, o do mercado spot, meramente especulativo.
Caso a caso
- Para o Brasil, o valor do importado é o da média ponderada das faturas lá fora, casada com a média ponderada de fretes, tarifas, juros e taxas de câmbio. A qualidade física do blend (abaixo da qualidade do brent) também entra nesse cálculo.
Valor é poder
- No mais, o lembrete do economista François Perroux (1903-1987): A indústria do petróleo busca algo mais que o lucro. Ela também se move pelo poder. É uma indústria bélica.





