Joelmir Beting




‘‘Não é porque as coisas são difíceis que nós não ousamos. É porque não ousamos que as coisas tornam-se difíceis.’’
Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.), filósofo romano
Driblando o choque
Decidido sexta-feira, o reajuste do diesel e da gasolina, a partir de amanhã, tem explicação menos na tendência dos preços do petróleo importado e mais no anúncio da Fipe, na véspera, de uma provável deflação em março. Se havia realmente alguma defasagem nos preços de refinaria, que melhor oportunidade que essa para fazer a correção sob medida?
O problema é que os preços administrados dos derivados de petróleo se tornaram reféns, não da variação de custos da Petrobrás (que fechou o ano com lucratividade recorde de R$ 1,7 bilhão), mas do curso erradio do ajuste fiscal da União. A esotérica conta-petróleo, vulgo Parcela de Preços Específica (PPE), é uma contabilidade sofisticada até para os contabilistas. Ela estáescalada para rodar 2000 com superávit de R$ 3,5 bilhões. Meta introduzida no Orçamento-Geral da União, com sobras para o programa pactuado com o FMI.
Não me perguntem como se pode fazer projeção solene em peças orçamentárias sobre a volatilidade dos preços políticos do petróleo alheio. Sabe-se apenas que a PPE passou rapidinho do azul para o vermelho no trimestre novembro/janeiro.
O importante é que a Petrobrás vem dando conta do recado escrito em 3 de outubro de 1953: a busca da auto-suficiência nacional. Ano passado, o da nova rasteira da Opep, a fatia do petróleo importado no consumo nacional caiu de 34% para 26%. Sim, estamos importando apenas um barril em cada quatro. Logo, a alta lá fora tem um impacto cada vez menor aqui dentro.
E que alta foi essa? Ah! Dizem que o barril ‘‘brent’’ disparou de US$ 10 para US$ 30. Um ‘‘choque de oferta’’ de 200%. Certo? Errado. Não se deve confundir preço ponta a ponta com preço médio do período. Diretor da Agência Nacional de Petróleo (ANP) e professor da PUC-RJ, Eloi Fernández y Fernández demonstra que o preço médio (média aritmética simples) pago pela Petrobrás, em 1999, foi de US$ 17,17. Abaixo do preço médio de 1997, que foi de US$ 17,76. Sem choque nem crise. O tranco maior foi o da correção cambial de 67% (dólar médio de 99 versus dólar médio de 97).
O diretor financeiro da Petrobrás, Ronnie Vaz Moreira, diz à coluna que o impacto da alta do barril importado tem sido refrescado não apenas pelo aumento da produção nacional. Também pela redução dos custos de extração e de refino do barril verde-amarelo. Na extração, o custo médio do barril, em 1999, caiu de US$ 3,50 para US$ 2,95. No refino, de US$ 1,50 para US$ 1,07. Maravilha!




Secos & Molhados
Como é que é?
- Sim, o barril importado está valendo US$ 30 e o barril nacional está custando US$ 3.
Enxugando
- A Petrobrás não será privatizada. Perdeu a reserva de mercado do monopólio estatal (que é da União) e já se revela uma empresa mais moderna, enxuta, versátil, ambiciosa e transparente.
Vale mais
- A Opep revalorizou o interesse externo pela segunda rodada de licitações da ANP. No leilão, 23 novos blocos em 9 bacias sedimentares.
Para baixo
- Aposta-se no aumento da oferta da Opep a partir de abril. Um barril em torno de US$ 20 é de bom tamanho para um custo médio abaixo de US$ 3.
Em Wall Street
- A Petrobrás prepara-se para lançar suas ADRs na Bolsa de Nova York. O pessoal da Bovespa suspira fundo: ‘‘Lá se vai mais uma pomba despertada...’’

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