Joelmir Beting
Bolha de sabão em bolsa não dura mais de três trimestres. Pois a de Wall Street já dura 21 trimestres consecutivos.
George Papert, consultor americano.
Codorna ou cachorro?
Passei duas semanas amassando neve em Nova York e jogando conversa pela janela com executivos de Wall Street. Deu para sacar que o tal de mercado continua levando muito a sério, mais do que deveria, as carrancas intermitentes de Alan Greenspan, o senhor do mundo, no dizer de um corretor da Prudential Securities. Para os profissionais do mercado, que administram ativos em bolsa da ordem telúrica de US$ 15,4 trilhões (na soma da Nyse com a Nasdaq), as falas do presidente do Fed, sobre uma suposta revoada de urubu da inflação de demanda, não deixa de ser um artifício político. Greenspan sabe que não é uma penada de 0,25% nos juros do Fed que vai manter a inflação aprisionada na bitola de 2% ao ano em regime de economia aquecida e de quase pleno emprego.
A façanha, como destacamos ontem nesta coluna, deve ser creditada à dobradinha da nova economia: máximo de modernização nas empresas com máximo de competição nos mercados. Então, por que insiste a autoridade monetária em brandir nova alta dos juros, com data marcada, 21 de março, próxima reunião do Fed? Aliás, que história estranha é essa de a autoridade monetária (seja ela o Fed por lá ou o Banco Central por aqui) sinalizar decisões ou antecipar intenções em matéria de juros, de crédito, de câmbio. Transparência ou ingenuidade? Arrogância do poder, certamente.
Pelo sim, pelo não, Wall Street entende que as puxadas nos juros do Fed, em viés de alta, estão atirando na codorna com a intenção não mais dissimulada de acertar no cachorro. Sim, o cachorro da irrational exuberance do mercado de ações e não a codorna da inflação de demanda, acuada no buraco de tatu de 2% ao ano. O próprio Greenspan admitiu no Congresso, quinta-feira, que projeta para este ano uma inflação de 1,8% para um PIB de 3,7% e um desemprego de apenas 4,1%.
Faltou dizer: por obra e graça, claro, de um juro básico por ele soerguido dos atuais 5,75% para 6,50%, até setembro.
Em três puxadas de 0,25%. Em cada puxada, assim com aviso prévio, as bolsas do mundo inteiro, Brasil no meio, estarão fazendo o jogo bruto da expectativa nervosa, a serviço de especuladores bem equipados. Para os quais, a economia americana vem emitindo, no rodapé do Efeito Greenspan, duas notícias recorrentes: uma boa, outra má. A boa notícia: a economia americana vai bem. A má notícia: a economia americana vai bem...
Secos & Molhados
Uma bolha?
- E tome discussão esotérica sobre o fastígio de Wall Street. Será realmente uma bolha? Pois essa bolha, como lembra George Papert, já dura cinco anos corridos. O patrimônio coletivo de metade dos americanos adultos vem dobrando de valor a cada 1.127 dias.
Bola-de-neve
- Só no ano passado, a Nyse, Bolsa de Nova York, empinou uma valorização acumulada de 25%. A Nasdaq, bolsa virtual das empresas high-tech, totalizou na ponta 86%. Até prova em contrário, o mundo não vai parar até o 21 de março passar.
Technobang
- Fundada em 1973, a Nasdaq agrupa 4.829 empresas e fechou janeiro com um valor total de US$ 5,2 trilhões. As empresas de informática e Internet respondem por 62% do bloco. As de biotecnologia, em segundo, 27%. Outros setores, 11%.
Temos bananas
- Empresas brasileiras de Internet, em fila indiana, engatilham o ingresso na Nasdaq. Em ritmo de IPO, sigla de Initial Public Offering (oferta pública inicial de ações).





