‘‘Toda vez que a realidade econômica muda, minha convicção acadêmica também muda.’’
John Maynard Keynes (1883-1946), economista inglês.
Swing de uma nota só
Indicadores de janeiro revelam que a economia americana não sai do eixo de quase ficção científica que já dura 107 meses corridos: crescimento econômico sustentado com estabilidade monetária duradoura.
Autêntica violação da lei de gravidade econômica estabelecida há meio século pela escola monetarista de Chicago.
Divulgados na sexta-feira, tais indicadores recolocam lenha na fogueira da perplexidade acadêmica manifestada na véspera por Alan Greenspan, em seu depoimento semestral ao Congresso sobre o estado de saúde da economia americana. Escoltado por 9 em cada 10 economistas afinados com a cartilha de Chicago, o professor Greenspan bate o punho cerrado na própria testa: não existe inflação enjaulada em tempo de economia aquecida.
O presidente do Fed, no trono desde 1986, ensinou a centenas de parlamentares igualmente ressabiados: ‘‘A inflação se manifesta quando o crescimento da demanda agregada ultrapassa o crescimento da oferta de bens e serviços em geral.’’ Ou seja: quando há mais dinheiro do que produto na roda-viva da economia. Certo?
Quinta-feira, Greenspan engrossou o discurso que vem repetindo desde agosto de 1997: só um tranco purgativo nos juros da economia movida a crédito bancário (na proporção de 86% do PIB) é capaz de segurar a fera da inflação de demanda dentro da jaula de 2% ao ano. Crédito curto e caro promove o desaquecimento dos mercados. No encalhe do produto, o preço deixa de subir. Se já subiu, começa a cair. E em caindo, afrouxa-se o garrote monetário, no figurino da política do ‘‘stop and go’’.
O problema é que na prática a teoria tem sido outra. A tal de demanda agregada já esgotou os limites da oferta idem. Tanto assim, que a oferta suplementar das importações totalizou em 1999 o recorde de US$ 1,230 trilhão (US$ 3,3 bilhões por dia!), com déficit comercial também recorde de US$ 271 bilhões. Até por conta dessa farra dos importados a inflação continua em plena soneca dentro da jaula. Ela não despertou nem mesmo quando a economia americana deu de materializar a utopia socialista do (quase) pleno emprego – com aumento do salário real.
Que o diga a Nairu. Que não é nome de nenhuma estagiária espevitada da Casa Branca. Nairu é a sigla em inglês de um postulado monetarista: ‘‘Nonacceleration inflation rate of unemployment’’ (Taxa de desemprego que não acelera a inflação). Pela Nairu, desemprego abaixo de 5% desencadeia inflação acima de 5%. Pois o desemprego está abaixo de 4,5% há quatro anos e a inflação no período transita abaixo de 2,5%.
Friedman explica? Nem Greenspan.




Secos & Molhados
Mistério?
- A convicção acadêmica que me perdoe. O sumiço da inflação de demanda made in Usa e abusa não é mais uma façanha da política monetária austera de Greenspan. Nem mesmo do superávit fiscal leonino de Clinton.
Quem faz
- A inflação de demanda está enjaulada pelos ganhos de produtividade das empresas e pelos choques de competição dos mercados. Ambos, em escala sem paralelo na história do capitalismo. Os primeiros reduzem custos. Os segundos congelam preços.
Causação
- Greenspan admite a desinflação incrustrada na produtividade da economia. Mas não tira o chapéu a uma competição definitivamente sem fronteira e sem bandeira. Que não é bolha passageira. A competição retempera a produtividade – que returbina a competição.
Ainda mais
- A competição vai ficar ainda mais ofídica nas ondas digitais do comércio eletrônico. Onde a distância que separa o mais fiel dos clientes do mais feroz dos concorrentes não passa de um clique.

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