‘‘Nenhum homem consegue entrar duas vezes no mesmo rio. Da segunda vez, não é mais o mesmo homem nem o mesmo rio.’’
Heráclito de Éfeso (540-480 a.C.), filósofo grego
Reatores a bordo
Com a ignição do reator de Angra 2, em março, a energia nuclear subirá de 0,9% para 2,1% da matriz energética brasileira. Com a conclusão de Angra 3, em 2006, a coisa estará acima de 5%. Muito ou pouco? Ainda residual. Na Argentina, com a retomada de Atucha 2, a fatia nuclear chegará a 7%. Nos Estados Unidos já está em 22%. Na Alemanha, onde Angra 2 foi projetada, parou em 29%. No Japão, com síndrome de Hiroshima, já cravou um terço: 34%.
Suecos e suíços contentam-se com 42%. Os belgas não deixam por menos de 60%. E a França, país mais nuclearizado do mundo, saca hoje das usinas atômicas exatamente 80% da energia total do país, o mais nuclearizado do mundo. O novo ‘‘oil shock’’ da Opep ainda não contaminou os preços do gás natural, mas jáserviu para desengavetar projetos de diversificação ainda maior da matriz energética da União Européia e dos Estados Unidos.
Angra 2 arrebentou a boca do balão dos cronogramas e dos orçamentos. Foi contratada em 1975, iniciada em 1977 e concluída agora, em fevereiro de 2000. Usinas nucleares de padrão germânico para 1.300 MW precisam de apenas cinco anos de construção. Angra 2 consumiu 23 anos. Vai para o Guiness Book. Ela saiu para o acostamento por falta de financiamento. Ou excesso de endividamento. Resultado: um custo plutônico de R$ 12 bilhões. Sim, em reais.
Ronaldo Fabrício, presidente da Eletronuclear, estatal encarregada da construção e da operação do tripé de Angra, prefere lembrar que a sobrecarga financeira da nova usina ‘‘não será repassada para as tarifas’’. O Tesouro Nacional absorveu dois terços do custo total da obra. Angra 2 vai contentar-se com US$ 23 por kw/h, contra os US$ 41 de Itaipu (que fatura realmente em dólar).
Quem começa a festejar a inauguração de Angra 2 no mês que vem é o governador Anthony Garotinho. O Rio de Janeiro, que tem petróleo para dar, vender e jogar fora nas águas da Guanabara, ainda importa 70% da eletricidade que consome. Ela é suprida pelo sistema interligado Sul-Sudeste, com epicentro em Itaipu, a 830 quilômetros em linha reta do Pão de Açúcar.
O governador fluminense lembra que a garantia de energia pontifica hoje no mapa de opções das empresas para a alocação de seus novos investimentos. Com as três usinas de Angra, o Rio reduzirá a importação de 70% para 30% até 2006. Até porque a partir de 2002 contará com as quatro grandes termoelétricas a gás e a óleo de Duque de Caxias, Rio das Ostras, Macaé e Cabiúnas. Elas vão gerar 2.400 MW, mais que a soma de Angra 1 e Angra 2.




Secos & Molhados
Sujou pagou
- Pela Agenda de Kyoto, por ordem da Rio 2000, haverá em todo o mundo o imposto verde por perdas ambientais na geração e transmissão de energia. Isso vai inflacionar as tarifas das usinas a carvão, óleo e gás, com sobras para lagos e linhões das hidrelétricas. As nucleares estarão isentas.
Como é que é?
- Na potência de 1.000 MW, a usina nuclear produz 20 metros cúbicos de lixo por ano. A usina a gás expele 210 mil toneladas também por ano. Se a óleo, 320 mil. Se a carvão, 510 mil. Fonte: AIE.
Salvaguardas
- Ronaldo Fabrício lembra que nas nucleares o rejeito atômico pode ser reprocessado. O lixo residual, que é letal, não é largado no ambiente, mas vitrificado, selado e monitorado como nenhum outro.
E o urânio?
- O Brasil prospectou apenas 25% do território e achou urânio para alimentar, a perder de vista, mais de 50 usinas do porte da Angra 2. Ah! A Eletronuclear não será privatizada.