‘‘Na economia, as soluções rendem mais que os problemas. Na política, os problemas valem bem mais que as soluções.’’
Nicolai Bukharin (1888-1938), economista e político soviético
Quem diria? Deflação
Deflação em fevereiro nos terminais do varejo metropolitano de São Paulo, registra o periscópio semanal da Fipe-USP. Com provável repeteco do fenômeno – realmente um fenômeno – também em março, com sobras para abril. Efeitos sazonais passam a jogar a favor da queda geral do índice. Entra em campo a nova safra de verão. A linha outono-inverno do vestuário só dá as caras em maio ou junho. A bolha do material escolar já furou. O petróleo importado tende a cair a partir de março com o fim do inverno no energívero Hemisfério Norte. E a sinistrose nacional entra em recesso.
Difícil, para 9 em cada 10 economistas, é explicar a deflação de fevereiro e março. Efeito da recessão enrustida? Não. O declive dos índices ocorre igualmente nos mercados mais aquecidos da economia do Real. Na cesta básica do Procon-Dieese, que dá carona a oligopólios de higiene pessoal e limpeza doméstica, a demanda deve ter crescido, no acumulado de cinco anos e meio de Real, algo próximo de 80% (na faixa dos supermercados). Pois a inflação acumulada dela, no mesmo período, não passa de 24%. Para 66 meses de mercado livre, uma inflação suíça.
Fruto da âncora cambial, ficção do Plano Real? A âncora sumiu no brejo em janeiro do ano passado. Há quem diga que ela não teria passado de mera fantasia acadêmica. Deflação resultante da austeridade monetária?
Também não é por aí. Juros asininos inflacionam os custos financeiros da economia privada e encarecem o financiamento dos rombos da gastança pública.
O leitor já sabe onde quero chegar. O desmanche da inflação no Brasil do Real tem tudo a ver com a trindade desindexação-competição-modernização. E não com os juros da Selic aqui ou do Fed lá. A dupla Greenspan-Malan bem que poderia deixar o PIB em paz. Um brado de guerra do Carrefour nas barbas do Pão de Açúcar faz muito mais pela estabilidade monetária do Brasil do que o monetarismo criogênico apurado em Chicago para disciplinar a velha economia. Que já morreu de velhice lá mesmo nos Estados Unidos e começa a emitir os últimos suspiros aqui na Botocúndia.
As batalhas do varejo entre nós chegaram a tal ponto que o setor industrial não conseguiu repassar para as lojas sequer um terço da inflação de custos (cambiais e tarifários) do ano passado. Medida pelo IPA, que integra o IGP-FGV, a inflação nas fábricas bateu no travessão dos 30%. Mas a inflação nas lojas, medida pelo IPC do mesmo IGP-FGV, ficou abaixo de 9%. Idem para o IPCA do IBGE, bitola oficial do ‘‘inflation targeting’’ do Banco Central. Calibrado, este ano, para 6%. Pode dar menos.




Secos & Molhados
Briga boa
- Grandes redes de supermercados, com massa crítica para a formação dos preços nas fazendas, nas fábricas e nos serviços, passam a operar com marcas próprias. Oferecidas com preços de 30% a 50% abaixo dos similares tradicionais.
Nova onda
- A explosão do comércio eletrônico, com seu tremendo potencial de ‘‘desintermediação’’ da economia em geral, é a próxima onda de desinflação no Brasil e no mundo. Coisa para o ano que vem. Os monetaristas vão perder o emprego.
Ainda não
- Falta desligar a tomada da inflação fabricada pelo governo. Ela se manifesta nos gastos sem cobertura real, na correção abusiva de tarifas e preços ainda administrados e na cumplicidade com os juros (e lucros) recordes do setor bancário.
Sem choque
- Na contenção dos preços, a competição estrangeira ataca até no pão de queijo mineiro – mas não, ainda, no sistema financeiro. Até quando?

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