Joelmir Beting
A informação agora é transnacional. Ela não tem pátria, como o capital.
Peter Drucker, em The New Realities (1989)
Ainda sem peso
A informação digitalizada, que dá a volta ao mundo em menos de um segundo e que está ao alcance de qualquer terráqueo movido a clique, realmente não tem pátria. Como já escrevia Peter Drucker, ainda antes da neura??? globalizante, a informação escapou do controle dos governos e deixou de ser um patrimônio privilegiado das empresas, das escolas, das elites, dos incluídos e dos formadores de opinião. Se é que ainda a informação se sustenta como reserva de mercado da indústria de comunicação.
O capital igualmente não tem pátria, compara Peter Drucker. E tal como a informação, o capital esnoba a autoridade dos governos e dos blocos de governos, incluído o condomínio monetário do FMI. Que nas recentes crises do capital volátil se descobriu feito rainha da Inglaterra: reina, mas não governa.
Certo? Errado. O capital tem pátria, sim, senhor. É o que sustenta o consultor Antoninho Marmo Trevisan. Entenda-se por capital, não o dinheiro volátil que transita pelo mundo na velocidade do pensamento, com diz Bill Gates. - E, sim, o patrimônio físico e humano das empresas nacionais, hoje abalroadas pelo espalhamento sem fronteira das gigantes transnacionais.
Pois também as transnacionais têm pátria, ora, pois. Trevisan lembra que elas têm matriz e decisão nos respectivos países de origem onde os acionistas principais recepcionam alegremente o repatriamento sistemático, com data marcada, de lucros, dividendos, licenças, royalties, amortizações, juros e comissões gerados por ativos externos superiores a US$ 4,5 trilhões.
Já que não se pode reverter a marcha da história que passa, Trevisan recomenda pegar esse bonde em movimento: Nossa saída não está na intervenção pífia do governo. Está na criação de empresas transnacionais de controle nacional, como já fazem os coreanos. De preferência, com a difusão global das grandes marcas brasileiras. E, de sobra, temos de rebaixar o Custo Brasil asinino e bater o sapato na mesa dos (des)acordos internacionais de comércio. Afinal, não existem nações fortes sem empresas fortes.
Empresas brasileiras transnacionais? Falta-nos massa crítica. As dez maiores corporações nativas, de domínio privado, totalizam negócios anuais de US$ 48 bilhões. A maior delas, o Bradesco, não passa de US$ 12,4 bilhões. A primeira do setor industrial, a Vale/CSN, contenta-se com US$ 6,3 bilhões. A Coréia do Sul, o gato que virou tigre, totaliza nas dez maiores um faturamento anual de US$ 175 bilhões, um terço do PIB. Todas transnacionais, com marcas globais.
Secos & Molhados
As dez mais
- O ranking brasileiro, por faturamento (US$ bilhões); 1) Bradesco, 12,4; 2) Itaúsa, 10,9; 3) Vale/CSN, 6,3; 4) Ipiranga, 5,1; 5) Organizações Globo, 4,5; 6) Tele Norte-Leste, 4,3; 7) Odebrecht, 4,1; 8) AmBev, 3,7; 9) Pão de Açúcar, 3,6; 10) Votorantim, 3,1.
Clube do bilhão
- Quantas empresas do Brasil e da América Latina faturaram mais de US$ 1 bilhão em 1999? O levantamento é da Ernst & Young: 85 empresas. Das quais, 41 do Brasil.
Caso único
- A Vale do Rio Doce, maior mineradora de ferro do mundo, já é transnacional. Exporta 80% da produção e partilha da decisão no mercado global. O preço é pactuado por ela com as concorrentes BHP e Hamersley e com as usinas de aço do Japão.
Limitação
- As empresas brasileiras não têm limitação de gestão nem de tecnologia. E, sim, de capital de terceiros. O dos bancos é um suicídio. O dos investidores em ações ainda é nanico.





