Joelmir Beting
São cegos guiando cegos. Quando um cego conduz outro cego, ambos acabam caindo, de mãos dadas, de buraco em buraco.
Evangelho de São Mateus, capítulo 15, versículo 14
A bola de cristal
O Fórum Econômico Mundial, instalado ontem em Davos, nos Alpes suíços, encara este ano um temário geral que mais parece letra de pagode em bar de Ipanema: Novos Começos: Fazendo Diferença. Que bicho é esse? A nata das elites globais ali representadas (governantes, acadêmicos e megaempresários) vai discutir, até terça- feira, o rumo e o ritmo da Economia da Informação.
Em sua 30ª edição anual, Davos não deixa de ser um par de faróis de milha espetados na cerração do futuro. De Bill Clinton a Bill Gates, ali presentes, os homens de Davos têm suficiente poder de intervenção na economia e na sociedade para fazer cumprir as megatendências que, a cada ano, são sopesadas para monitorar a passagem que ainda nos resta neste nosso vale de lágrimas.
Em certas ocasiões, os desenhos do futuro acabam deletados pelas anomalias do presente. Davos antecipou, em 1985, o que viria a ser a Queda do Muro, em 1989. Acertou na previsão maior, a do desmanche da União Soviética - sem tiro, sem greve, sem livro, sem manifesto, sem passeata. Mas não foi tão longe na hipótese da reunificação terminal da Alemanha - que então se imaginava só para o ano 2000. Davos também influiu no fim do apartheid na África do Sul (1992) e no avanço do processo de paz no Oriente Médio (1996).
O curioso é que a bola de cristal de Davos tem acertado mais na previsão de eventos políticos do que na prospecção de mudanças econômicas. O encontro anual não vislumbrou a quebradeira em cascata da Ásia (1997) nem a capitulação da Rússia (1998). Ah! Em 29 de janeiro do ano passado, o Fórum abriu um capítulo ao Brasil, então espancado por um dólar livre a R$ 2,12. E, tal como se deu por estas plagas cabralinas, os iluminados dos Alpes alertaram para os riscos da explosão inflacionária, com reindexação sumária, recessão histórica, desintegração social e política, moratória da dívida externa e dólar a R$ 3,50 até o Natal da catástrofe verde-amarela.
Pois amanhã haverá almoço de trabalho em Davos para as falas de Armínio Fraga a 250 comensais de peso. O presidente do Banco Central, que na edição passada ainda escoltava o boss George Soros lá mesmo em Davos, vai explicar por que o Brasil não acabou e por que, parando de piorar, já começa a melhorar.
No mais, Davos entra na alça de mira da fuzarca de Seattle. Mais que a OMC de padrão ONU, o Fórum das elites, casado com a luxuosa estalagem alpina, é a própria cara do que a esquerda ideologicamente desempregada chama de globalização. Ou neoliberalismo.
Secos & Molhados
Começos?
- Davos define como novos começos a atual transição da velha economia (dos átomos) para a nova economia (dos bites). Vulgo Economia da Informação. Ou melhor. Economia do Conhecimento. A boa idéia vale mais que ouro puro.
Quem viu?
- A bola de cristal de Davos revelou-se opaca diante das transformações desencadeadas, nos anos 90, pela eclosão da Idade Digital. Um furacão na vida das pessoas, das famílias, das empresas, dos governos, das instituições em geral.
Delirando
- Para descontar o atraso, Davos ousa adivinhar o que nos reserva o ano 2005, com sobras para o ano 2010. Se é que daria para vislumbrar o que vai ocorrer em 2001.
Choque maior
- Está para estourar a revolução maior: a do comércio eletrônico, ainda nas dores do parto. Ele vai revirar todos os dogmas que ainda cevamos em relação à empresa e ao mercado. Logo mais, nesta coluna.





