‘‘Quem aprisiona a inflação de demanda não é a política monetária. Na nova economia, a façanha é da produtividade e da competição.’’
Joelmir Beting, coluna de 14/11/1994


Um disco voador
Comenta-se nos bares de Wall Street, branca de neve, que o triunfo cada vez mais delirante do touro (bull) da alta sobre o urso (bear) da baixa começa a esnobar as carrancas intermitentes de Alan Greenspan, o ‘‘senhor dos mercados’’. Parece que os postulados da nova economia dos bites vão mesmo prevalecer sobre os fundamentos da antiga economia dos átomos.
Essa questão metafísica, de corte kafkaniano, diria entre nós o ensaísta José Guilherme Melchior (1941-1991), pode ser assim resumida: o atual e já longo ciclo de prosperidade econômica, com estabilidade monetária, nada tem a ver com as políticas de equilíbrio geral do governo e do Fed. O processo, sem paralelo na vitoriosa carreira do capitalismo americano, resulta dos ganhos de produtividade das empresas e dos choques de competição nos mercados. Um movimento revolucionário desencadeado pela explosão das tecnologias da informação desde meados da década de 80.
Tradução: são os engenheiros, os executivos e os empreendedores os verdadeiros responsáveis pelo ‘‘milagre americano’’ neste limiar do novo milênio. O problema é que os governantes e os economistas (quase todos) ainda não sacaram a lógica das mudanças. Nem mesmo o rumo e o ritmo com que as coisas estão mudando. Ou já mudaram. Até porque se trata de uma baciada de mudanças rápidas, profundas e intangíveis. O Brasil também surfa essa onda.
Pois os ‘‘jovens ditadores do mercado’’, na observação reducionista de Paul Krugman, já estão perdendo o medo de Greenspan. Ou da elevação virtualmente anunciada dos juros na semana que vem. Os profissionais do mercado lidam com dois tipos de clientela: 1) os investidores anônimos, titulares do capital; 2) os especuladores do ramo, agentes da liquidez.
Aão dois discursos distintos. Os investidores (um americano adulto em cada dois) continuam apostando na lucratividade física das empresas e na rentabilidade sideral de suas ações em bolsa. Eles fazem posição para um ano ou para uma década. Os especuladores, bem ao contrário, têm a cabeça e a carteira plugadas no dia, na hora, no minuto. Eles é que passam à mídia alarmista, agora operando em tempo real, um certo clima de ‘‘nervosismo’’ nesta vigília da nova canetada do Fed.
São alguns milhares de especuladores aborrecendo o cotidiano de dezenas de milhões de investidores. E tome um fim de semana de caldo de galinha, em meio mundo, só porque meia dúzia de burocratas recheados de álgebras tem reunião marcada para terça- feira.




Secos & Molhados
Desafiante
- O índice Dow Jones ensaia recepcionar a provável elevação dos juros, terça-feira, acima de 11.750 pontos. O pico do Everest de um mercado de risco que vem remunerando os investidores com retorno médio anual de 24%.
Farra geral
- Ganhar 24% ao ano significa dobrar o patrimônio em apenas três anos. De 1950 a 1994, a Bolsa de Nova York emplacou valorização média de 12% ao ano. O capital dobrava em seis anos.
Sem trégua
- Não há como promover a migração de fatias da poupança nacional em ações (US$ 17,8 trilhões) para a renda fixa. Os juros desta não são competitivos com os ganhos daquela.
Disco voador
- Economia aquecida (+4%), emprego recorde (96%), renda familiar crescendo 2,3% no trabalho e 24% em bolsa, empresas lucrando os tubos – e a inflação americana não consegue escapar da jaula de 2,5% ao ano... Freud explica? Nem Friedman.

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