Joelmir Beting
Vocês sabem por que São Paulo realmente não pode parar? Porque a gente não consegue lugar algum para estacionar.
Regina Casé, humorista e atriz
Cidade de serviços
A economia de serviços emprega hoje 8 paulistanos em cada 10. A cidade está, mais que nunca, vocacionada para a economia de serviços, futuro do mercado de trabalho no Brasil e no mundo. Juntam-se nela os serviços arcaicos e os serviços modernos. Entre os últimos, São Paulo já é a capital brasileira dos serviços financeiros, dos serviços de bolsas, dos serviços de informática, dos serviços de saúde e, logo mais, dos serviços de entretenimento.
Sim, São Paulo acaba de romper a correia de transmissão da decadência metropolitana. Com 10 milhões de habitantes, a capital paulista aproxima-se da estabilidade populacional. A taxa de crescimento demográfico por reprodução biológica e por adição migratória despencou de 4% ao ano, em 1970, para 0,4%, em 1998. Há 30 anos, projetava-se para este 446º aniversário da cidade uma população de 17 milhões...
O que houve com a cegonha paulistana? A taxa de fecundidade baixou piedosamente de 4,1 para 2,3 filhos por mulher. Até porque, em 30 anos, o trabalho fora do lar disparou de 3 em cada 10 para 7 em cada 10 mulheres. E a recepção de imigrantes, no mesmo período, deve ter recuado de 5 para 1.
A desindustrialização da capital explica as taxas recordes de desemprego cumulativo, da ordem de 20% (Seade-Dieese). A economia de serviços, agora returbinada pelos seus mercados mais dinâmicos, tende a reverter esse quadro. Com o aviso aos imigrantes: para trabalhar doravante em São Paulo não basta mais uma simples passagem de ônibus. O novo mercado de trabalho é exigente e seletivo.
A capital doente parou de piorar? Ainda não. Os paulistanos carregam o fardo de chumbo de pelo menos três décadas de degradação consentida, para não dizer estimulada. Há desafios terríveis nos campos minados da segurança pública, do transporte coletivo, do trânsito pesado, da habitação popular, da proteção ambiental, do saneamento básico. A cidade caminha de peito aberto e cabeça oca para o racionamento irreversível da água encanada. A partir de 2004.
Felizmente, espraia-se a percepção coletiva de que a solução dos problemas metropolitanos de São Paulo (e de outras 11 metrópoles brasileiras) depende de um choque de vontade política. Os urbanistas, os técnicos, os empresários e os investidores têm as soluções. Mas os políticos, donos da caneta que tudo pode, estão travados. E não por escassez de recursos, mas por estupidez das decisões. Um vácuo de poder que agiganta nas provações da cidade a máfia das propinas incrustada na Prefeitura e na Câmara Municipal.
Secos & Molhados
Viva o centro
- A fuzarca urbana da periferia não pode protelar a reabilitação do centro velho da capital. Em meio mundo, a reconquista do centro (para trabalho e moradia) é um projeto de grande alcance econômico. Com toda a infra-estrutura urbana já instalada.
Volta por cima
- A coluna recomenda a leitura do capítulo 11, do livro de Michael Porter, Competição, lançado pela Harvard Business Book e editado no Brasil pela Campus. O capítulo trata da vantagem competitiva dos centros das grandes cidades. Um tiro na mosca.
Revitalização
- Michael Porter serve-se dos casos de Boston, Chicago e Nova York para documentar a tese: revitalizados por projetos públicos e capitais privados, os centros velhos tornam- se o próximo alvo da explosão da moderna economia de serviços.
Para o futuro
- Uma consultoria internacional rastreou um certo perímetro do centro velho de São Paulo e soltou o rojão: um patrimônio imobiliário degradado, hoje avaliado em US$ 11 bilhões, poderá ser reabilitado para US$ 45 bilhões.





