‘‘Até começar a parecer rotina, o caos não é perigoso.’’
Max Gunther, banqueiro suíço
Ainda sem câmbio
O câmbio perdeu o juízo na decolagem dos anos 70 e até hoje não reencontrou o eixo das paridades autênticas entre as 182 moedas nacionais que integram o sistema monetário internacional concebido em Bretton Woods, nos idos de julho de 1994. Pau-da- barraca do sistema global, o FMI teve de mudar de ramo. De feitor das moedas ou do câmbio, virou auditor de bancos e países credores nas contas e nos planos de governos ou países devedores.
Na falta da referência cambial confiável – que seria o preço relativo de todos os preços do universo econômico –, a União Européia vem exercitando uma paridade razoável desde a crise do Nixon Snock de 15 de agosto de 1971 – quando do abandono do lastro ouro (do dólar) pelo salão oval da Casa Branca. O atarantado FMI só tomou conhecimento da dramática decisão pelo noticiário noturno da televisão. Charles De Gaulle quase morreu de apoplexia.
Com quase duas décadas de treino, a União Européia acaba de completar seu primeiro ano de moeda única, o euro, alquimia cambial de 11 das 15 nações do megabloco comercial. Tentativa final de fazer do câmbio, pelo menos na Grande Nação Europa, alguma coisa concreta para a realização do cálculo econômico.
Com pelo menos 25 anos de atraso, o FMI liga o desconfiômetro e começa a turbinar nos bastidores a idéia de uma futura (e penosa) convocação de uma nova Bretton Woods. Antes que a indisciplina cambial de nações ricas, pobres e emergentes destrua no mercado das moedas sem lastro tudo aquilo que a economia real das empresas (e até dos governos) vem realizando de bom nos últimos dez anos de ‘‘rationale’’ econômica. A própria fuzarca global do capital volátil tem tudo a ver com a ‘‘morte inglória do câmbio’’, na sentença de Robert Mundell, Prêmio Nobel de Economia de 1999.
Na ausência de um regime cambial planetário (e na impossibilidade técnica e política para a construção pactuada de uma moeda universal), o FMI destila para uso interno a metodologia do Purchasing Power Parity (PPP), vulgo ponderação do poder de compra de cada moeda nacional no respectivo mercado interno. Condição que dá ao Brasil o 9.º PPP no ranking mundial do FMI.
A revista inglesa The Economist prefere, por sua própria conta e risco, a emissão da primeira moeda universal digna do nome: o PPP lastreado pelo sanduíche ‘‘Big Mac’’, produzido e vendido rigorosamente com os mesmos ingredientes nos 154 países franqueados da McDonald’s americana. Essa ‘‘moeda de referência’’, mais próxima da economia real comparada, foi inventada em 1994 e tem sido levada a sério por múltis européias, americanas, japonesas e coreanas. A primeira cotação 2000 está na edição desta semana.




Secos & Molhados
Exageramos
- Pelo dólar ‘‘Big Mac’’, a moeda brasileira estava sobrevalorizada em 7% na entrada do ano passado. Agora, decorrido um ano de câmbio fora da banda, o dólar está 34% acima do que realmente pesa em real.
Tem gordura
- Tecnicamente, a atual cotação do real, pelo poder de compra do sanduíche universal, tem gordura de sobra para atravessar o ano 2000 sem sair da bitola de R$ 1,80 a R$ 1,90.
Valem mais
- Ainda pelo dólar ‘‘Big Mac’’, temos três moedas sobrevalorizadas no mundo: 43% do shekel de Israel, 26% da libra inglesa e 14% do iene japonês. O euro saiu há um ano com sobrevalorização de 14% e está agora na paridade certa, sem folga.
Valem menos
- Além do real, 34% abaixo do dólar, estão com desvalorização superior a 50%, pelo PPP do ‘‘Big Mac’’, as moedas da Rússia, Turquia, Malásia, Hungria e China.

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