‘‘Lucros crescentes? Ganhar cada vez menos sobre cada vez mais. Eis a lógica da economia em rede, com sua ditadura do padrão.’’
Christopher Meyer, consultor americano de Internet
O poder da rede
Para ganhar cada vez menos sobre cada vez mais é preciso alargar o mercado a ferro e fogo: 1) ou pela expansão do negócio vitorioso por sobre o espaço cedido pela concorrência fragilizada; 2) ou pelo atalho das fusões, das alianças e das incorporações, nas barbas da legislação antitruste. A gratificação dos lucros crescentes não vale para empresas físicas dos mercados físicos. Mas passa a dar as cartas nos negócios tangidos pela nova Economia da Informação.
Aí está a principal exposição de motivos para a megafusão da America Online Inc. com a Time Warner Inc. Nos mercados chipados, tamanho é documento. Não existe a maldição dos lucros decrescentes amoitada na economia de escala de uma montadora de automóveis ou de uma distribuidora de fertilizantes. Produtos digitais e serviços virtuais, transportados pelo clique de um botão (e não por vagão, navio, caminhão, carroça ou avião), são valorizados pela extensão continuada da rede on-line.
Estamos diante de um novo fundamento da ciência econômica. A abundância pelo lado da demanda vale mais que a escassez pelo lado da oferta. Daí a corrida contra o relógio pela conquista e ampliação da rede ou do padrão. A vasta clientela faz opção menos pela qualidade ou pelo preço do produto ou serviço oferecido e mais pela compatibilidade dos sistemas e programas ‘‘empacotados’’.
Bill Gates foi o primeiro a enxergar (e a explorar) o filão dos lucros crescentes da ‘‘economia em rede, com sua ditadura do padrão’’, na definição do consultor Christopher Meyer, diretor do Ernst & Young Center for Business Innovation. Meyer desenvolve a chamada ‘‘teoria da complexidade’’ da Nova Economia. Parte desse trabalho está presente no ‘‘best seller’’ que escreveu juntamente com Stan Davis: Blur. Editado no Brasil pela Campus. Uma radiografia das mudanças telúricas que ocorrem hoje no cotidiano das empresas de todos os setores, tamanhos e endereços. Uma revolução estrepitosa, parafusada no tripé velocidade/conectividade/intangibilidade.
A nova megaempresa envolve uma recomposição societária de US$ 184 bilhões (55% da America Online e 45% da Time Warner). Os ativos físicos de ambas (a primeira, maior do mundo na Internet; a segunda, maior do mundo na multimídia) não passam de US$ 14 bilhões. A Time Warner deve na praça US$ 17,8 bilhões. O faturamento conjunto ronda US$ 41 bilhões.
Mas, ontem, em bolsa, a futura nova gigante estava valendo US$ 367 bilhões. Em valor de mercado, já nasce com crachá de terceira maior corporação do mundo, em todos os tempos. Só perde para a General Electric (US$ 442 bilhões) e para a Microsoft (US$ 517 bilhões).




Secos & Molhados
Megamídia
- A bordo da AOL, a Time Warner será a primeira e única empresa da multimídia a correr com cavalos em todas as raias: revistas, livros, discos, filmes, vídeos, dados, televisão, Internet e TV a cabo.
Banda larga
- Na garupa da Time Warner, a AOL espraia-se do acesso para o conteúdo em rede. E pega o atalho da TV a cabo para alcançar o Olimpo da banda larga a serviço da atual clientela da Internet e da futura galera da televisão interativa.
Virou mico?
- O acesso gratuito à Internet, oferecido por fornecedores de conteúdo e serviços (caso dos bancos e do novo portal iG.com no Brasil), elimina a fonte de renda original das provedoras em geral. Começando pela maior delas, a AOL.
Um sorvete
- O acesso gratuito ‘‘tirou o sorvete da boca da criança’’, admite Antonio Tavares, presidente da Associação Brasileira de Provedores de Internet (Abranet). O acesso pago faturou no Brasil R$ 1,6 bilhão em 1999.

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