‘‘O problema do nosso tempo é muito simples: o futuro já não é mais o que costumava ser.’’
Paul Valéry (1871-1956), poeta francês
Fera fora da jaula
Cobrar pelo acesso à Internet é um negócio realmente sem futuro. Uma autofagia econômica para a lógica obtusa da Web. Equivale a cobrar pela audiência de um jogo de futebol em radinhos de pilha. A comparação é do consultor americano Don Tapscott, em seu livro Geração Digital, editado aqui pela Makron Books.
Os provedores de acesso pelo acesso que tratem de vestir a camisa de provedores de serviços, de conteúdos e de infovias de alta velocidade para clientes corporativos – agora que o tempo zerado pela própria Internet deixou de ser medido em segundos ou minutos para ser valorizado em bytes e megabytes. As receitas futuras terão de ser sacadas de diferenciais de qualidade, de alocação de conteúdos e de comissões em comércio eletrônico, em publicidade comercial e em telefonia consumida pelos usuários.
Comissões de telefonia? Em 2003, se tanto, a telefonia em rede estará respondendo por menos de 2% do faturamento da própria. Acabará virando mais um ‘‘serviço gratuito’’ no ventre bojudo da Internet gratuita, segundo Michael Dell, tido como o inventor do comércio eletrônico antes da eclosão da Internet.
Os próprios provedores de conteúdo estão assustados com a vocação libertária da Internet, com sua mania de distribuir de graça também produtos digitais genuínos – cujo meio de transporte não é vagão, navio, avião ou caminhão, mas o simples clique de um botão.
Michael Robertson fez da MP3.com uma bomba-relógio sob a cama das gravadoras de música e, logo mais, também das produtoras de imagem. Nos Estados Unidos, ‘‘mp3’’ acaba de superar o ‘‘sex’’ como o termo mais procurado no Yahoo. E o padrão mp3 virtual já tem o mp3 físico, os espertos mp3man lançados agora pela RCA, Sony, Samsung e Gradiente.
A Internet gratuita já tem sete provedores no Brasil: Bradesco, Unibanco, BRFree, Super11.net, Igreja Católica, Netgratuita e iG. Dos grupos Garantia e GP, a iG estourou na praça feito um rolo-compressor sem volante: ‘‘Chegou a Internet Grátis. Você não precisa ser cliente de ninguém nem comprar nada. E sem limite de tempo.’’ A coisa começou no mundo há pouco mais de um ano pela cadeia inglesa de varejo Dixons. Ela abriu o Freeserve como atividade-meio e caiu das nuvens no achado da atividade-fim. Arrebanhou 1,7 milhão de usuários em três meses e hoje ostenta a alquimia digital que nenhum economista consegue entender. A Freeserve faturou no ano US$ 22,1 milhões, gastou US$ 27,3 milhões só em publicidade e fechou balanço com perdas de US$ 7,8 milhões, mas abriu o capital em julho e já em dezembro valia, em bolsa, US$ 8,7 bilhões.




Secos & Molhados
Bola-de-neve
- A Inglaterra conta hoje com 288 provedores, tanto quanto o Brasil. Já teve quase o dobro. Restam hoje 78 provedores pagos contra 210 provedores gratuitos (incluídos 43 bancos). A forasteira AOL era a maior do ramo. Já perdeu para a Freeserve.
Diferença
- O acesso gratuito espalha-se pela União Européia, mas não, ainda, pelos Estados Unidos, a Meca da Web. Por que? Porque as taxas de acesso são irrisórias para os americanos e ainda salgadas para os europeus. Idem para tarifas telefônicas.
Um brinde
- Dell, Compaq e Apple passam a oferecer Internet de graça aos compradores de seus PCs. Ford e General Motors vão embutir Internet no painel de seus automóveis e caminhões. Gratuita? O custo do novo opcional estará diluído no preço total do veículo.
Por um fio
- No Brasil, modelo antigo, o acesso pago ainda responde por 83% do faturamento dos nossos 285 provedores. Comissões em vendas e em publicidade entram com o restante.

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