‘‘Na vida da gente, só duas coisas ficam cada vez mais encorpadas com o passar do tempo: os vinhos e os juros.’’
Mark Twain (1835-1910), escritor americano.
No cartão, claro
Até que o estoque nacional de cartões de crédito não cresceu tanto no ano passado. Ele passou de 22,1 milhões, em janeiro, para 23,6 milhões, em dezembro. Aumento de 7,2%. O que levantou a crista foi o uso dos cartões no vácuo deixado pelo refugo coletivo dos cheques pré-datados.
Os 12,2 milhões de portadores (média abaixo de dois cartões por cabeça) gastaram R$ 42 bilhões em 1999, contra R$ 32 bilhões em 1998. Aumento de 31,5%, sem contar a inflação de 0,94%, medida pelo IPCA.
Cresceu igualmente sem inibição o número de estabelecimentos comerciais operando com cartões. No ano, o salto foi de 305 mil para 507 mil. Projeção da Associação Brasileira das Empresas de Cartão de Crédito e Serviços (Abecs): 1 milhão de pontos de venda até o próximo Natal da distensão nacional. Único retrocesso no setor foi, obviamente, o uso dos cartões internacionais. Os gastos lá fora despencaram de US$ 3,6 bilhões para US$ 2,1 bilhões.
Presidente da Abecs, Waldemar Petty diz que o pulo-do-gato foi a iniciativa do comércio em geral de parcelar a fatura do cartão – sem juros. Foi aí que o cheque pré-datado acabou tomando chá de sumiço.
Outro dia, nos arredores de Guarulhos, São Paulo, topei com a faixa do borracheiro de fundo de quintal: ‘‘Aceito Visa’’.
Cartão parcelado, sem juros. Irresistível. O torpedo é o do cartão a prazo em banco, onde o chamado crédito rotativo continua cobrando do portador desavisado (ou sem alternativa) juros de 10,95% ao mês. Ou de 247,96% ao ano! Isso nada tem a ver com a lei da oferta e da procura. E, sim, com a lei do achaque e da usura.
A migração dos compristas para o cartão de crédito parcelado e sem juros tem tudo a ver com a indestrutível extorsão do crediário de loja. Que o diga o coitado do Papai Noel 98. Pesquisa mensal da Anefac (entidade nacional dos executivos de contabilidade, auditoria e finanças) desvenda o tamanho da usura nacional no crédito de loja. Em dezembro, taxa média de 7,51% ao mês ou de 138,44% ao ano.
Coordenador da pesquisa, o consultor Miguel José Ribeiro de Oliveira diz que ‘‘há um jogo de má-fé no regime do crediário’’. Explicando: ‘‘Pelo Código de Defesa do Consumidor, a loja se obriga a informar, com destaque, a taxa mensal e a taxa anual equivalente em suas vendas a prazo. Em dezembro, 76% dos anúncios do varejo não informaram claramente as taxas oferecidas, e 98% simplesmente omitiram as taxas anuais correspondentes. E, dos poucos que abriram o jogo dos juros nos anúncios, 43% colocaram as taxas anunciadas abaixo das taxas efetivamente praticadas.’’




Secos & Molhados
Pela base
- Na base do sistema, a taxa Selic permanece em 19%. No mercado futuro de juros, correm lances abaixo de 19%. Há que se aguardar a passagem de 1/2 de fevereiro, tempo de decisão do Fed sobre a taxa básica americana (estacionada em 5,50%).
Pela ponta
- Na ponta dos financiamentos para giro, produção e consumo, a taxa Selic ainda não apita nem chia. A queda dos juros está atrelada a uma futura redução dos compulsórios, dos direcionamentos, dos embaraços judiciais e dos penduricalhos fiscais.
Descasadas
- De março a dezembro de 1999, a Selic recuou de 45% para 19% ao ano. O cheque especial, na média dos bancos, baixou de 13,30% para 10,34% ao mês. Porcentualmente, redução de 57,78% na primeira e de 22,25% na segunda.
Sem choque
- Bancos estrangeiros, agora espraiados no mercado brasileiro, ainda não se lembraram de aplicar um choque de competição nos créditos ao setor produtivo.