‘‘O otimista leva sobre o pessimista uma enorme vantagem: sofre só uma vez, no fim. O pessimista sofre o tempo todo.’’
Fernando Sabino, escritor
Sonho de Natal
Carestia em baixa, economia em alta. Crescem o crédito, o consumo e o emprego. Declinam os juros e disparam as bolsas. Os dólares chegam de todos os lados e por todos os meios e o mercado cambial aproxima-se da taxa de equilíbrio, abaixo de R$ 1,80 por dólar. Eis o sonho de uma noite de verão da quase totalidade dos brasileiros. Exceção dos que investem no piorômetro nacional.
O cenário armado nesta semana do Natal é realmente um milagre verde-amarelo se cotejado com a sinistrose destilada pouco antes do carnaval. Lembram-se? Nove em cada dez pitonisas encharcadas de álgebra, diria Simonsen, pintaram um 1999 digno de uma emigração em massa para a Austrália. Simplesmente, o pior ano do século que termina...
Certo, o Brasil ainda não melhorou, mas já parou de piorar. Há sinais de retomada consistente dos investimentos produtivos. Algo parecido com 21% do PIB (contra 16% na média da década). O setor privado nacional entra com 17% e as multinacionais com 4%. O setor público resfolega nas rampas da poupança zero.
A volta por cima – que pode fazer de 2000 o ano da virada – deu-se em regime de superação das sete pragas do Egito: 1) choque cambial; 2) choque tarifário; 3) recarga inflacionária; 4) sobrecarga tributária; 5) choque externo do petróleo; 6) choque interno da estiagem; 7) desmonte da popularidade do presidente.
E tome catastrofismo dos profetas do Apocalipse. Devidamente servidos por uma certa mídia coisa-preta, ainda com síndrome da mídia chapa-branca. Até porque previsões pessimistas, em economia, são levadas a sério. Se elas se confirmam, os autores desfilam crachá de gênios. Se elas não se consumam, eles lavam as mãos: ‘‘É porque tomaram providências com base em nossas advertências.’’
Constrangidos, eles se limitam a dizer que esta euforia de Papai Noel não passa de euforia de Papai Noel – consumidor compulsivo e imprevidente. E juram, por todos os juros, que a bolha do Índice Bovespa, acima de 15 mil pontos, é precisamente uma bolha de sabão. No Natal passado, a coisa estava abaixo de 7 mil pontos. Aquilo, sim, era índice técnico. Agora, é pirotécnico.
Donos da bola natalina, a um espirro da virada do milênio, os lojistas brasileiros estão faturando, em termos reais, sobre o Natal anterior, de 10% a 15% mais. Sem inflação de demanda. O consumidor tornou-se informado e seletivo e o competidor nunca foi tão equipado e agressivo. Doravante, não basta mais saber vender nem saber comprar. A alma do negócio, agora, é saber agradar.




Secos & Molhados
Até quando?
- As bolsas mais que dobraram o patrimônio dos investidores este ano: 118%. Alguns bancos acumularam valorização superior a 350%. Há quem aposte em Índice Bovespa de 20 mil pontos até maio.
Acelerando
- Aposta corrente no ‘‘bolão’’ do mercado pela Internet: o PIB vai crescer 2% no primeiro trimestre, 3% no segundo, 4% no terceiro e 5% no quarto. No ano, média de 3,5%. Em 2001, o impulso de banguela pode levar o PIB para 6%.
Estabilidade
- Armínio Fraga acredita em PIB de 6% com IPCA de 3%. Sim, para 2001. Crescimento econômico sustentável com estabilidade monetária consistente. Com repercussão nas urnas presidenciais de 2002.
Um gargalo
- Antonio Ermírio de Moraes disse ontem à coluna que um PIB de 6% eleva o consumo de eletricidade para 9% (relação de 1,5% de energia para cada 1% do PIB). ‘‘Ainda não temos essa energia para 2001.’’

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