‘‘Políticos honestos, porém despreparados, deixam de ser honestos. Eles não passam de uma grande fraude.’’
Gilbert Keith Chesterton (1874-1936), escritor inglês.
Senhores do mundo
A instituição mais poderosa e mais influente na vida de 6 bilhões de terráqueos não é a ONU nem o FMI ou a OMC. É uma nova raça de analistas financeiros que surfam a onda de um negócio pernóstico até no nome: agências de ‘‘rating’’, classificadoras de riscos financeiros e cambiais de países e empresas de grande porte. Elas dão notas e letras aos avaliados em linguagem cifrada do tipo AAA, B2, A3, BBB+, Caa3, Aa2, SD e quejandos. A transparência parece não fazer o gênero de quem classifica riscos alheios a partir de critérios de avaliação questionáveis, porém irrecorríveis.
Aquilo que poderia ter sido uma atribuição natural do FMI, desde que ele foi inventado em julho de 1944, virou agora uma ditadura política global de meia dúzia de agências privadas de ‘‘rating’’. Sobre apurar o estado de saúde (ou doença) de nações, governos e corporações, essas agências monitoram indiretamente opções de investimento, alocação de projetos, confiabilidade de governos, credibilidade de bancos (e respectivos mutuários), inclinação dos juros (atrelados aos riscos) e taxas de câmbio (chumbadas aos juros).
O Brasil tem sido, desde novembro de 1997, na quebradeira em cascata da tigrada asiática, o grande armazém de pancadas das pitonisas de ‘‘rating’’. Pagas em ouro por assinantes de meio mundo, as agências não farejaram o ‘‘crash’’ do México (dezembro de 1994), não alertaram para a implosão da Ásia (outubro de 1997) nem sequer rebaixaram a nota da Rússia antes da moratória da própria (agosto de 1998) - caçapa cantada em todas as línguas desde 1996.
Resultado: rebaixamento sistemático (e preventivo) do Brasil cor de anil. As duas maiores agências, Moodye Standard & Poor, colocam o Brasil abaixo da Colômbia, abaixo da Croácia, abaixo da Rússia, abaixo do Vietnã, abaixo de dezenas de países emergentes e submergentes. Essa não é a percepção das empresas globais. Com aposta acima de US$ 28 bilhões, elas fizeram do Brasil, este ano, o quarto receptor mundial de investimentos externos de risco, atrás só dos Estados Unidos, Alemanha e França.
Para o capital produtivo (e não meramente volátil ou especulativo), o Brasil vai de risco quase sem risco tipo AAA, o mesmo que a Standard & Pooratribui ao Japão. Eis que a Moodydescobre, na última quinta-feira, que declina o risco de moratória da nossa dívida pública interna em reais. E tome promoção de Caa1 para B3. A mesma cotação da Rússia, o urso que virou bode.
Uf! Que presente de Papai Noel! Menor o risco, menor o juro. Menor o juro, menor a dívida. Menor a dívida, menor o déficit. Menor o déficit, menor o risco...




Secos & Molhados
Estrago
- Notas baixas no ‘‘ranking’’ da Moodyou da Standard & Poorcustam bilhões de dólares no serviço da dívida externa brasileira. Que pagava, até quinta-feira, 12,28% ao ano (com vencimento em 4 anos), contra 8,87% do México (em 7 anos).
Memória
- Os peritos da Moodydizem que o rebaixamento do Brasil também tem a ver com a ‘‘memória de mercado’’ da moratória do Sarney, do confisco do Collor e do calote do Itamar.
Lembrete
- Presidente da Febraban, Roberto Setubal, suspira: ‘‘Toda vez que um candidato à Presidência volta a falar em moratória, ele faz o Brasil pagar juros mais altos lá fora. É bom que todos os políticos e partidos tenham consciência disso.’’
Sem grilos
- Múltis e bolsas ignoram as agências e apostam no Brasil. O índice Bovespa ensaia superar, esta semana, a barreira de 15 mil pontos. Contra menos de 6.800 pontos no Natal anterior.

mockup