Joelmir Beting
As dificuldades são exatamente como as montanhas. Elas só se aplainam quando avançamos sobre elas.
Émile Zola (1837-1902), escritor francês
Contra a maré
A bola de cristal da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) aponta para um saldo comercial de US$ 2,3 bilhões no ano 2000. Vamos embarcar US$ 53,2 bilhões e importar US$ 50,9 bilhões. Sobre 1999, um aumento de 3,2% nas importações e de 12,2% nas exportações.
Prognóstico econômico de qualquer natureza não deixa de ser um exercício de cartomancia recheada de álgebra. No comércio exterior brasileiro, ainda de baixo índice de extroversão nas duas mãos, o resultado da balança no ano vai depender de algumas variáveis que escapam do nosso controle e da nossa indução.
A primeira delas é o nível de expansão do PIB se de 3%, se de 4%, se de 5%. Economia reaquecida (a partir do crescimento zero neste ano) pesa mais no prato das importações. A segunda é o índice de inflação no atacado ou na produção, o IPA embutido no IGP/FGV. Ele traduz a evolução dos custos agrícolas e industriais se repassados com casca e tudo para os preços de fazenda ou de fábrica. Pois o IPA deve fechar o ano perto de 29%. Cadê a margem de competitividade lá fora?
A dança dos índices de preços na produção e no consumo faz a música das taxas de juros do crédito bancário e repercute na variação das taxas livres de câmbio. Juros e câmbio também têm tudo a ver com a apetência ou não de exportadores e importadores, para não dizer, no fim da linha, de consumidores. Dá para projetar juros no crédito ressabiado para produção, giro e consumo?
Menos esotérico é imaginar para o câmbio uma cotação média, no ano que vem, de R$ 1,85. Claro, para um IPCA abaixo de 8% e um déficit externo em conta corrente abaixo de 4,5% do PIB. Além de um saldo comercial de pelo menos US$ 2,3 bilhões, farejado pela AEB. Aquele superávit de US$ 5 bilhões, comprometido com o FMI, não deve sair da carta de intenção, suspira o presidente da AEB, Benedicto Fonseca Moreira, que é o do ramo.
Igualmente nebuloso é o cenário externo para uma competente recuperação dos preços médios (ainda achatados) das principais mercadorias brasileiras de exportação. No acumulado de 12 meses, até outubro, segundo a Funcex, a queda foi de 17,4% nos primários, de 17,7% nos semimanufaturados e de 7,7% nos manufaturados. Judiação! Isso destruiu mais da metade do ganho cambial real (deflacionado pelo IPA de 29,4% no mesmo período).
Único refresco para os preços globais: a OMC estima que o comércio mundial crescerá 7% no ano que vem, resgatando a enérgica média anual da década, até 1996, antes do crash asiático.
Secos & Molhados
Retomada
- Benedicto Moreira admite que a reconquista do superávit comercial, ainda que tímido, pode ser irreversível. Já existe uma mentalidade exportadora no setor privado e uma vontade política no setor público para o desmanche do Custo Brasil.
Terra firme
- O risco cambial já baixou a bola. Dá para arriscar jogadas com ACC (operações financeiras de Adiantamento de Contrato de Câmbio). Haverá menos volatibilidade nas cotações do câmbio e nas taxas de juros.
Um vexame
- Com o câmbio livre, prometemos ao FMI, já para este ano, um superávit de até US$ 11 bilhões. Ficamos no déficit de US$ 1,9 bilhão. Erro de previsão de US$ 12,9 bilhões.
Um alívio
- Há quem diga que, sem o câmbio livre, o déficit teria fechado o ano acima de US$ 11 bilhões, quase o dobro de 1998. Única certeza: a) não estamos importando muito; b) continuamos exportando pouco.





